II - UM CÓDIGO DE ÉTICA

Como já se disse anteriormente, Samuel Fuller nutre uma ambígua admiração pelos valores tradicionais do modo de vida americano. Por um lado, o cinema de Fuller mantém os padrões que regem o cinema mainstream hollywoodiano. O ponto de alicerce dessa relação está na sustentação de um código de ética, seguido até a morte por seus personagens. Essas regras implícitas, próprias de seus personagens mas claríssimas aos olhos do espectador, reforçam a identificação do espectador com seus personagens. Esse código de ética obviamente varia de acordo com o modo de vida do personagem, mas no fundo é um sistema homogêneo. Mesmo no submundo do crime ou no front de batalha, nas situações mais adversas, os personagens de Fuller respeitam um ética implícita. Por isso, nos filmes de Fuller nunca impera o caos absoluto, porque seus personagens têm o sentido de dever e a responsabilidade para cumprir seus objetivos de uma forma moral. Mesmo retratando ladrões ou mercenários, admiramos esses personagens, porque eles respeitam seus próprios códigos de conduta, coerentes com seu modo de vida particular. Isto é, nos filmes de Fuller, não existe traição.

Exatamente por esse motivo, um filme como Anjo do Mal, com todas as características para ser um típico filme noir, acaba optando por um outro caminho. Quando normalmente esperaríamos que Candy (Jean Peters) se aproximasse de Skip (Richard Widmark) seduzindo-o cinicamente apenas para conseguir o microfilme, ela acaba se apaixonando pelo pickpocket. Anjo do Mal é um filme sem mocinhos, em que todos os personagens fazem parte do submundo. Skip é um pickpocket que já foi preso três vezes; a velha Moe (Thelma Ritter, indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante pela sua brilhante atuação no filme) vende informações sobre o submundo em troca de dinheiro; os policiais batem nos criminosos; Joey é um agente comunista. Mesmo Candy, que inicialmente não sabia que se tratava de um plano comunista, já tem passagem pela polícia, e o filme sugere que ela foi uma prostituta no passado.

Mas ainda assim admiramos ou compreendemos cada ação dos personagens. Entendemos o ódio do policial para com Widmark, e mesmo a loucura do agente comunista, pela pressão de seus chefes. O caso mais extremo é o da velha Moe. Devido à sua vivência como vendedora de gravatas, ela conhece cada pessoa e passo no submundo. Ela é conhecida por todos como vendedora de informações sobre pessoas e lugares difíceis de serem encontrados. A partir de alguns detalhes, ela fornece à polícia o nome do pickpocket. Do outro lado, o próprio submundo informou a Candy que a velha Moe seria a única que poderia lhe dizer quem lhe roubou a bolsa. Embora ela denuncie Skip, ele não tem raiva dela, pois compreende seus motivos. Quando vê na bolsa de Candy uma gravata, ele percebe que fora Moe quem havia lhe fornececido seu endereço, mas apenas se ri. "Ela tem que sobreviver", retruca Skip. O próprio submundo tem a plena consciência da existência de uma velha fisicamente frágil que vende informações que denunciam o esquema de funcionamento do submundo. Apesar disso, Moe não é eliminada pelo submundo, mas alimentada por ele, porque ela segue um código de ética claro, típico das pessoas que sobrevivem no submundo. Embora ela venda informações, ela "não é uma informante", como faz questão de deixar claro a Candy em sua visita. Se o dinheiro para Moe é fundamental, ele não o é como um fim, mas como um meio. O dinheiro é o passaporte para a sua dignidade, capaz de comprar um túmulo que não a deixe morrer como uma indigente. Quando o agente comunista oferece agressivamente o dinheiro a Moe, ela recusa. Ela claramente mostra que não é uma informante, e se recusa a ajudar o comunismo, porque ela "tem certeza de que não gosta dele". Se Moe não consegue ter uma vida digna, ela só poderá atingir a dignidade com a morte. A morte para Moe é portanto uma forma de redenção. Widmark, ratificando seu código de conduta, dá o dinheiro necessário para resgatar o caixão de Moe e promover um enterro digno. Os dois expoentes do submundo – Moe e Widmark – possuem uma certa relação de cumplicidade mútua, mesmo que implícita.

Se Anjo do Mal discute o código de ética do submundo, Baionetas Caladas o apresenta através da hierarquia militar. De fato, o código de ética está sempre relacionado à noção de responsabilidade moral ou dever. A retaguarda, composta de 48 homens com um fim praticamente certo, aceita sua missão com conformismo. Ela não se rebela, nem apresenta desertores, porque mantém seu código de ética.

Já no início do filme, Fuller apresenta o principal problema que rege o filme. Mesmo os generais, oficiais mais graduados, não usam de sua autoridade para se esconder no front de batalha, protegendo suas próprias vidas, mas possuem a coragem para se expor até a morte, se necessário. Eles possuem o senso de dever, e a responsabilidade para serem governados pela supremacia do coletivo, e nunca do individual. Talvez seja exatamente o medo da morte que tanto apavora o cabo Denno. Ele receia que suas decisões erradas levem seu grupo de comandados para a morte. Seu medo talvez seja mais de se expor à morte do que propriamente de comandar. Por isso, a primeira etapa de superação de seus limites foi o resgate ao sargento Lonegan, passando entre minas escondidas sob a neve. Pela primeira vez, Denno esteve frente a frente com a morte, e superou o desafio, resgatando o sargento. Paradoxalmente, sua coragem para fazê-lo esteve baseada exatamente no seu próprio medo de comandar. Com a morte de Lonegan, haveria uma pessoa a menos que lhe fosse superior em hierarquia. Daí a importância crucial de salvá-lo.

Quando Denno assume o comando do pelotão, é exatamente seu senso de dever e responsabilidade, isto é, os pilares de seu código de ética, que o impulsionou a superar seus limites. Investido no comando, seu código de ética deu-lhe forças para que a necessidade coletiva superasse seus traumas pessoais. Denno não fugiu à sua responsabilidade, mesmo quando outro cabo ameaçara se rebelar e fugir. Ele assumiu o comando que lhe era de direito, isto é, como era o seu dever. Por outro lado, embora vez ou outra reclamassem da hierarquia, os soldados respeitavam as ordens dos comandantes. Linguarudo seguiu as intruções de Lonegan, mesmo após ser advertido por este, e nenhum tipo de vingança permaneceu. Mais à frente, o próprio Lonegan perdeu sua vida ao tentar resgatar o soldado que acabara de lhe falar que o sargento era "um oficial frustrado". Da mesma forma, quando Denno assumiu o comando do pelotão, as divergências do outro cabo terminaram, e todos consolidaram seu comando e sua instruções. A hierarquia militar confirma o código de ética, que em última instância permitiu a união do grupo, a supremacia do coletivo em relação ao individual fundamental para o sucesso da missão.

A Dama de Preto discute o código de ética no jornalismo. Filmes como Jejum de Amor (His Girl Friday, Howard Hawks, 1941), Cidadão Kane (Orson Welles, 1940), ou A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Wasington, Frank Capra, 1939) já mostravam como o jornalismo poderia ser usado com o fim de manipular a opinião pública, ferindo o código de ética.

No filme, o jornalista Phineas Mitchell representa o verdadeiro código de ética de um novo jornalismo, preocupado mais com fatos do que com fofocas ou boatos sem importância. O espírito desse código de ética é apresentado logo na primeira cena do filme, em que vemos estátuas de dois pilares da ética da imprensa: Benjamin Franklin e Horace Greeley. No precário escritório de Mitchell, no jornal The Globe, vemos penduradas na parede fotos de pessoas cujo código de ética regeu suas vidas. Ironicamente, Fuller faz um contraponto quando apresenta o escritório suntuoso de Charity, do jornal The Star, em cujas paredes há um quadro da própria dona do jornal. Na seção 5, será discutido como o código de conduta de Mitchell é usado por Fuller para mostrar seu amor ao próprio cinema. Mitchell não aceita a proposta de Charity para transformar seu jornal num veículo mainstream, assim como o inventor Morgenthaler também recusa a oferta tentadora de Charity para aperfeiçoar seu invento no seu jornal. O pequeno The Globe não é absorvido pelo poder econômico do The Star essencialmente pela manutenção do código de ética entre os funcionários, que preferem ganhar menos num negócio extremamente incerto para lutar por uma imprensa mais ética.

Charity, por sua vez, tem seu próprio código de conduta. Percebemos que, de uma certa forma, Mitchell não só respeita mas também admira a vitalidade de Charity. Mas claramente o tipo de jornalismo que ele ambiciona é outro. Embora ele a respeite, ele não concorda com sua postura. Charity acaba agindo como forma de se defender, numa atitude inevitável. Quando o filme promove uma verdadeira guerra entre os dois jornais, Fuller tenta ao máximo proteger sua pseudo-vilã. Após a destruição das bancas do Globe e dos recibos falsos para o fundo da estátua, Fuller sugere que foi um empregado de Charity que interpretara mal suas ordens. Isso fica expresso no final, quando Charity ajuda Mitchell a manter seu jornal. Embora Fuller se esforce em salvaguardar a imagem de Charity, as ambigüidades desse tratamento serão avaliadas com mais detalhes na seção 5.

Dragões da Violência utiliza o conceito de código de ética num gênero em que tipicamente a ética comanda as ações dos personagens: o western. Sullivan e Stanwich representam o último legado de uma geração em vias de ser extinta. Sua união representa de certa forma um conformismo, que acentua o fim de uma era. O próprio Sullivan sugere a seu irmão que ele se torne um fazendeiro, e que não mais trabalhe com armas. Stanwich vê seu forte grupo se dissolver. Ela é uma grande representação do código de conduta do western psicológico. Embora forte e decidida, vemos que essa aparência externa esconde uma mulher que optou pela vida agressiva como forma de fuga, como um trauma do estupro quando adolescente. Ela é no fundo uma mulher carente, solitária e cansada do tipo de vida que leva. Stanwich não protege os membros de seu grupo apenas por serem membros do grupo. Ela censura seu irmão, e não concorda em libertar o delegado da prisão. Ela é portanto respeitada por todos por sua lisura. Em especial, se os personagens de Fuller não abandonam seu código de ética, é fascinante como Fuller acompanha esses personagens, respeitando o próprio código de ética do "western psicológico". Dragões da Violência é um filme em que o passado é apenas sugerido, intimista a ponto de se revelar um melodrama, e essencialmente monossilábico.

Já em Tormenta Sobre os Mares, há dois códigos de ética. Widmark representa um personagem do submundo com semelhanças ao pickpocket de Anjo do Mal. Widmark se interessa pela missão apenas pelo dinheiro. Por outro lado, o Dr. Montel entra na missão como um voluntário, para evitar um holocausto nuclear. Enquanto Widmark é um materialista, Montel é um idealista. Quando Widmark descobre que seu antigo amigo – o Cap. Taylor – morreu na expedição, ele retruca "30 anos na marinha e ele é morto por uma foto, e de graça!". Mesmo com visões de mundo tão distintas, Widmark e Montel podem fazer parte de um mesmo grupo, embarcando juntos na expedição com o mesmo objetivo. Isto só é possível porque ambos seguem um código de ética. Embora Widmark pouco se importe a princípio com os objetivos da expedição, ele cumpre exatamente seu papel, desde que ele receba sua soma em dinheiro. Para o dr. Montel, a expedição é a oportunidade de utilizar os serviços da ciência para tentar resolver ou esclarecer as fontes de uma possível guerra atômica.

O materialismo de Widmark e o idealismo do Dr. Montel se unem definitivamente exatamente para combater a quebra de um código de ética. Os japoneses planejam um ataque a seu próprio país, utilizando um avião pintado como um similar americano, apenas para ter um pretexto de provocar uma guerra atômica. Isso seria uma violação de um código de ética, pelo caráter sujo e desonesto da empreitada. É nesse instante que Widmark e Montel se fundem. Mesmo sem uma quantia de dinheiro adicional, Widmark admite se arriscar para destruir o avião antes de ele bombardear a ilha. O fato é curioso se lembrarmos que Widmark e Montel acabaram de ter uma séria discussão porque Widmark queria retornar, pois achava que a missão estava concluída, sem a necessidade de visitar uma segunda ilha. Isso confirma que Widmark estava na expedição apenas pelo dinheiro. Mas logo após a descoberta da farsa dos japoneses, Widmark muda de idéia. A quebra do código de ética permitiu que pela primeira vez Widmark e Montel estivessem realmente com o mesmo objetivo.

Isso nos remete a um outro ponto enfatizado por Fuller: o patriotismo. Anjo do Mal, Baionetas Caladas e Tormenta Sobre os Mares se encaixam na "paranóia do pós-guerra", causada pela tensão provocada pela Guerra Fria. Em Anjo do Mal há uma citação explícita aos comunistas como sanguinários e espiões infiltrados nos Estados Unidos. Já os outros dois filmes são indiretos, sendo ficções ambientadas no passado e envolvendo países do Oriente. Baionetas Caladas se passa na Coréia, em 1951. Tormenta Sobre os Mares, no verão de 53, no Pacífico Sul. No primeiro, há uma necessidade explícita de apresentar o exército americano como quase indestrutível, como se alertasse aos inimigos sobre a bravura e a coragem de suas tropas. No filme um único pelotão foi capaz de vencer um batalhão inimigo inteiro. Seus componentes foram capazes de praticamente sacrificar suas vidas em prol do objetivo coletivo. No segundo, a paranóia é clara, quando se especula que um avião estrangeiro possa se travestir de americano para causar pretexto para uma guerra. Fuller nitidamente incorpora elementos dessa paranóia do pós-guerra em seus filmes, o que é mais um indício da aprovação do diretor aos valores do modo de vida americano. Embora em Anjo do Mal Widmark ironize o policial quando ele diz que o filme é de posse comunista ("você está apelando para o meu patriotismo!"), é estratégico que Candy de fato não saiba ser parte de uma conspiração comunista. Além disso, Moe preferiu a morte do que ajudar um comunista.

Em Tormenta Sobre os Mares, a transformação de Widmark se deveu ao seu senso de patriotismo. Embora ele estivesse na expedição apenas por dinheiro, ao descobrir a farsa dos inimigos, Widmark percebeu que a única chance de evitar uma guerra seria acabar ele mesmo com a farsa. Nesse caso, percebemos como o patriotismo está intimamente ligado com a noção de um código de ética. Pois nada mais ético que defender seu próprio país contra uma ameaça estrangeira, apresentada como injusta e antiética. Em Anjo do Mal, o agente comunista simplesmente mata Moe e atira em Candy por estar impaciente em receber as informações. Em Tormenta Sobre os Mares, os inimigos atiram impiedosamente contra a expedição, sequer esperando sua resposta pelo sinalizador. Além disso, o plano dos inimigos em explodir a ilha é uma total falta de ética. Portanto, nada mais ético que o patriotismo.

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