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PINCELADAS DE FOGO Chih-wa-seon,
Cor�ia do Sul, 2002 De
Im Kwon-Taek (Festival
do Rio � Esta��o Botafogo 1 � S�bado, 27/09/2003, 12hs)
Mesmo tendo realizado mais de cem filmes e sendo uma unanimidade em seu pa�s natal, o sul-coreano Im Kwon-Taek s� teve seu talento reconhecido nas terras ocidentais recentemente, com o impacto da recep��o do anterior Chunyang (Amor Proibido) no Festival de Cannes. Ali�s, diga-se de passagem, esse bel�ssimo filme, exibido ano passado no Festival do Rio, foi aniquilado pela cr�tica local quando de sua exibi��o numa das pequenas salas do Laura Alvim, sobrevivendo, por isso, por uma semana no circuito comercial. Em Pinceladas de Fogo, novamente exibido com
sucesso na �Riviera Francesa�, Im Kwon-Taek confirma sua voca��o
para o cinema narrativo de moldes cl�ssicos, al�m de um olhar particular
para o processo de cria��o art�stico, tornando seus dois �nicos filmes
exibidos por aqui, um pequeno adendo metalingu�stico. Neste, se n�o h�
a figura do narrador, que acrescenta a Chunyang um irresist�vel toque de
poesia, h� a biografia do pintor Jang Seung-Up. Entre as aventuras e
desventuras do pintor, Im Kwon-Taek, como t�pico cineasta oriental, vai
ao cerne da quest�o, quando comenta a influ�ncia dos mestres e a import�ncia
de seguir um caminho pessoal, ou seja, entre a tradi��o e a modernidade.
A quest�o � ainda mais l�cida se pensarmos que o pintor est�
completamente envolvido nas quest�es da arte de sua �poca. O pintor
precisa buscar um sentido de vitalidade novo e pessoal seguindo
estritamente os padr�es da arte da �poca. (Isto �, deve-se ser pessoal
pintando p�ssaros e �rvores, por exemplo). Nada que Poussin ou Friedrich
n�o tenham feito � pode-se indagar o leitor atento � mas decerto que
para Jang Seung-Up o respeito �s tradi��es � muito mais intenso, o que
leva seu reconhecimento ser mais sutil e amb�guo. E Im Kwon-Taek nos faz
perceber isto. De certa medida, � o que est� em jogo neste
projeto de Im Kwon-Taek. E o que permanece em discuss�o � exatamente
isto: at� que ponto o diretor sucumbe ou subverte as regras do cinema cl�ssico,
mesmo permanecendo fiel a elas. N�o h� d�vidas que � um sublime
criador de atmosferas, e mostra uma habilidade �mpar no uso dos elementos
de linguagem (a articula��o do flashback, o mise-en-scene especialmente,
a profundidade de campo � que at� o faz relembrar de Mizoguchi �, a
coreografia dos atores e da c�mera, o uso das cores, a grandiosidade da
produ��o, etc.). Mas por outro lado, o filme parece envolto em um certo
didatismo no ato da narra��o, e claramente parece ter sido reduzido em
rela��o ao projeto original (cortes abruptos que n�o se articulam com o
estilo descritivo/narrativo do diretor, etc.) A figura do artista algumas vezes esbarra no conceito rom�ntico (o sentido do deslocamento, as crises depressivas, a martiriza��o, o artista como exc�ntrico e pouco disciplinado, a �nfase na inspira��o, a devo��o ao mestre, etc.), mas em geral o que fica de Pinceladas de Fogo, al�m do fant�stico trabalho de artes�o na realiza��o, � como o diretor constr�i uma reflex�o sobre o processo art�stico (a inevit�vel conflu�ncia tanto dos fatos pol�ticos como dos pessoais na arte, um sentido de solid�o, a dolorosa tarefa de superar os pr�prios limites, o �rduo trabalho de evitar a acomoda��o da repercuss�o p�blica para atingir os verdadeiros objetivos, etc.) num filme de inevit�vel olhar cl�ssico.
Crist�v�o Bresson (24/09/2003) |