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ENTRE A �GUA E O FOGO L'acqua
e Il Fuoco, It�lia, 2003 De
Luciano Emmer (Festival do Rio � Espa�o Unibanco 1 �
Quinta, 09/10/2003, 18:30hs) Nascido em 1918, o octogen�rio Luciano Emmer tem uma
filmografia bastante peculiar, e merece ser observado por isso. Em 1950,
dirigiu Domenica d�Agosto, um filme que, ao enforcar o cotidiano de um
grupo de jovens num dia de domingo comum, o consagrou dentro do estilo
neo-realista. Ap�s dirigir mais alguns filmes, Emmer abandonou o cinema,
trabalhando na televis�o e eventualmente em publicidade. Apenas nos anos
90, mais de quarenta anos depois de seu �ltimo filme, retornou � dire��o
em cinema. Em Entre a �gua e o Fogo, Emmer realiza um filme de
tr�s epis�dios independentes, mas que implicitamente possuem uma t�nue
rela��o. Nesse sentido, nos lembra, ainda que vagamente, o Inquietude,
de Manoel de Oliveira, outro diretor da �quarta� idade, especialmente
pela diferen�a de tom da primeira hist�ria em rela��o �s demais. A
atriz Sabrina Ferilli percorre as tr�s hist�rias representando
diferentes personagens, que no fundo s�o a mesma: a dona-de-casa, a
suicida fugitiva e a circense s�o tr�s espectros do mesmo drama da
mulher de meia-idade procurando uma sa�da de sua vida f�til. O drama
feminino recebe uma abordagem popularesca, mas em cada epis�dio Emmer
combina os elementos tipicamente realistas da trama com passagens quase de
um realismo m�gico. O primeiro epis�dio, Stefania, que descreve a crise
de uma dona-de-casa solit�ria no dia de seu anivers�rio, � filmado num
estilo did�tico e cl�ssico que se iguala a uma novela das oito. Recursos
dram�ticos desgastados, usados para nossa como��o (a torta de anivers�rio
que se despeda�a, a visita da filha que acaba por n�o se realizar, etc.)
s�o acompanhados de um estilo teatral que descreve em mon�logo todos os
atos da personagem (�vou ligar para minha filha�, diz a personagem,
antes de pegar o telefone e ligar para sua filha; �vou trocar todo o meu
guarda-roupa�, diz para si mesma, ao observar com desprezo todas as pe�as
de roupa, etc.). Ao colocar fogo numa esp�cie de roteiro e em seguida em
sua pr�pria casa, Stefania foge de sua vida claustrof�bica, quase que
como se assinalasse os rumos do filme a seguir. O segundo e terceiro epis�dio, se n�o s�o
radicalmente diferentes em termos da dramaturgia, nos oferecem algumas
surpresas em rela��o ao mise-en-scene e � incorpora��o do elemento m�gico.
No segundo, Elena, ao tentar o suic�dio mergulhando no Sena, � resgatada
por um mendigo. Ele recusa o ato de hero�smo, e ela volta para lhe
agradecer e os dois passam a noite juntos. O mendigo o � por op��o, ao
que parece, j� que lhe revela um pote cheio de dinheiro, e o casal passa
esta �inesquec�vel noite� nos restaurantes e boites mais caros da It�lia.
Um certo esgar ir�nico acompanha a peregrina��o do mendigo pelos
lugares, mas Emmer faz um passeio noturno por uma Roma festiva que n�o
tarda a revelar sua impossibilidade e seus tons de hipocrisia. Ao contr�rio
do primeiro epis�dio, Emmer faz quest�o de explicar o menos poss�vel: n�o
sabemos quem ela ou ele s�o, e o filme assume um car�ter fabulat�rio
claramente fantasioso, embora n�o se descuide de ser atentamente
descritivo ao cotidiano noturno do local. No terceiro, o tom m�gico domina o epis�dio,
centrado numa fam�lia que administra um circo. Pai, filha e madrasta (a
protagonista) trabalham num circo que nada tem de extraordin�rio ou
grandioso. A apresenta��o � improvisada num peda�o de quintal; o p�blico
se senta em cadeiras comuns; o espet�culo � simples, com uma
malabarista, uma equilibrista e um palha�o. O pai, b�bado, tem um
colapso e � internado; a filha, foge com um estrangeiro, que chega de
repente ao lugar e que refor�a a dificuldade de comunica��o. A mulher,
sozinha, precisa se multiplicar nas fun��es para prosseguir o espet�culo. Come�ando numa banheira de espuma, num primeiro epis�dio de um realismo did�tico, falso e irritante, passando por uma tentativa de suic�dio com o mergulho num rio, e terminando com um austero plano da pobre mulher vestida de diabo, substituindo o marido e soprando fogo, Entre a �gua e o Fogo, como o t�tulo diz, segue, embora sem maiores propor��es, um trajeto entre um realismo piegas e sentimentalista e um tom m�gico sombrio que problematiza sua constru��o fabulat�ria ��gua-com-a��car�. Em comum, ligando os tr�s epis�dios, o drama feminino de meia-idade, ligado a uma car�ncia afetiva, e um olhar sobre a solid�o e seus sintomas. Marcelo Ikeda (10/10/2003) |