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DEMONLOVER Demonlover,
Fran�a, 2003 De
Olivier Assayas (Festival do Rio � Esta��o Botafogo 1 �
Sexta, 03/10/2003, 00:00h) Demonlover
ou as superf�cies da perversidade do prazer Ex-cr�tico da Cahiers de Cinema, o franc�s Olivier
Assayas tornou-se bem conhecido no circuito do cinema de arte europeu nos
anos noventa, especialmente por dois filmes � �gua Fria e Irma
Vep. Infelizmente nenhum de seus filmes teve exibi��o no circuito
comercial brasileiro, sendo que estes dois filmes apenas passaram
recentemente num dos canais do Telecine. *
*
* Bastante mal recebido em Cannes, Demonlover �
um filme controverso, e o mais amargo dos tr�s filmes de Assayas vistos
por aqui. Alguns fatores podem levar a uma compara��o com Irma Vep:
a conflu�ncia entre o Ocidente e o Oriente, com as refer�ncias ao Jap�o
e � Fran�a, o esbo�o de um cinema metaling��stico, o trabalho pl�stico
do filme/site dentro do filme. Mas se enquanto Irma Vep se
concentrava na ang�stia do processo de cria��o, em Demonlover n�o
h� espa�o para a cria��o, para a inspira��o art�stica do auteur:
todo o produto passa a ser exclusivamente obra do mercado, mero �business�,
e o filme se revela ent�o uma incessante e cansativa t�cnica de negocia��o
em que valem n�o somente os recursos l�citos, como especialmente os
fora-da-lei. Nessa investiga��o desse ramo do business � um site pornogr�fico na internet � Assayas promove um mergulho, parcial e cinematogr�fico, no submundo das novas m�dias. Para valorizar seu desencanto, o filme � um conjunto de armadilhas e trai��es, sendo que a imagem � tratada em sua frivolidade, num reino de apar�ncias e superf�cies. O mundo sadomasoquista de Demonlover.com se mistura com o da anima��o de TokyoAnime. A �nfase no aspecto business como ess�ncia metaling��stica
� trabalhada por Assayas fazendo de seu filme um aparente thriller do
mainstream norte-americano. Seu desencanto est� em negar/ocultar o
processo de cria��o, enfatizando o aspecto do neg�cio em paralelo a uma
tentativa de submergir o lado autoral, metamorfoseando seu filme num amb�guo
exerc�cio do cinem�o. � partir da repulsa e da atra��o por um cinema
de inspira��o meramente sensorial e de condu��o narrativa que Assayas
articula um olhar sobre a perversidade e a necessidade do prazer. Assayas
trabalha o prazer pelo que � proibido: prazer pelas superf�cies da
imagem, pelo poder, pelo dinheiro, pelo cinemascope, pelo sexo, pela sedu��o
do cinema e da vida de artimanhas e sedu��es. Mas por outro lado, essa
sedu��o revela uma fragilidade, espelha uma crise que contamina todo o
seu plano de filmagem com uma iminente impossibilidade. A fria mulher que se revela uma espi�, �gil
negociadora, se masturba com um d�bil v�deo pornogr�fico quando est� a
s�s, querendo estar na cama com o homem que ela deve trair. Ela procura
exatamente aquilo que os �pervertidos� clientes de demonlover.com
procuram. Ao final, a personagem principal, a agente, fluxo da a��o,
hero�na e ladra, comandante e comandada, se torna ela mesma um mero
produto do site que ela buscou construir, objeto do olhar, fetiche, m�scara
do prazer voyeur�stico. O site dentro do filme. Ela, um simples produto
do nosso olhar, espectadores de demonlover.com e de demonlover. Entre o prazer e a perversidade, entre a solid�o e a fuga, simultaneamente seduzido e sedutor, Demonlover, como seu inspirad�ssimo t�tulo denota, � sua tentativa particular de fundir o amor e o pecado, o permitido e o proibido, o real e o virtual/metalingu�stico, o site e o filme. Disso resulta um filme que faz quest�o de ser irregular, provocativo, algumas vezes quase ca�tico, mas sem deixar de ser perturbador e instigante. N�o deixa de ser um reflexo do desencanto do diretor com os rumos do dito cinema de autor.
Crist�v�o Bresson (07/10/2003) |