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COISAS SECRETAS Choses
Secretes, Fran�a, 2003 De Jean-Claude Brisseau (Festival
do Rio � Esta��o Botafogo 1 � Quarta, 08/10/2003, 00:00hs) Em Coisas Secretas, a vida e o cinema aparecem completamente desmascarados, desvelados em suas entranhas. Mas para esse desnudamento, a estrat�gia de Brisseau � de revelar, minuciosamente, a caracter�stica de artif�cio e fabrica��o premeditada em cada um de seus segundos. � nessa infatig�vel tarefa de despir-se, de desvelar todos os pequenos s�rdidos detalhes de nossa exist�ncia que Coisas Secretas se revela com uma desconcertante objetividade. N�o h� espa�o para um trejeito, para um esgar: os personagens precisam urgentemente lutar contra o tempo, lan�ar-se em suas pequenas a��es. Nathalie e Sandrine s�o duas funcion�rias de uma boite: a primeira, uma stripper; a segunda, barmaid. Quando s�o expulsas a pontap�s pelo gerente da boite, as duas querem se vingar dos homens, e a primeira passa a ensinar a segunda a liberar sua libido e despertar suas fantasias. Com isso, Coisas Secretas a princ�pio parece trilhar um caminho t�pico, como filme que trabalha o olhar voyeur�stico de inclina��o gay at� o drama pol�tico das duas mulheres que querem subir na vida a qualquer custo, suplantando as hipocrisias da sociedade machista. Mas Brisseau � muito mais que isso, e paulatinamente transforma Coisas Secretas como um terr�vel e inquietante passeio pelas necessidades do viver. Todo o filme vai se revelando um verdadeiro jogo, em articula��o com o pr�prio processo cinematogr�fico. O filme vai sordidamente revelando as estrat�gias das duas mulheres para alcan�ar seus objetivos. � medida que o filme avan�a, descobrimos que o �jogo� � meramente parte de outro jogo mais amplo; cada personagem � usada por outra para conseguir seu objetivo. Sandrine usa um funcion�rio da empresa para chegar at� Delacroix. Ele � facilmente seduzido pelas artimanhas de Sandrine que, por sua vez, faz parte da estrat�gia de Nathalie para se aproximar de Christophe, e esta mesma estrat�gia acaba se revelando parte do jogo de Christophe para reduzir o poder de Delacroix. Ampliando cada vez mais o leque, ao final Brisseau termina quase numa batalha do bem contra o mal, de Deus contra o Diabo, e o filme acaba inesperadamente tomando propor��es metaf�sicas. Mas o que torna Coisas Secretas uma obra-prima � o estilo descritivo de Brisseau. Filmado quase de forma displicente, quase todo em planos m�dios e americanos, numa decupagem aparentemente convencional, Brisseau provoca uma radiografia cruel para revelar que a vida pode ser muito mais premeditada que o cinema. Seus personagens n�o t�m vida; seus sentimentos s�o meros atos circunstanciais para atingir os objetivos planejados. Mas dado isso, dada a recusa de viver, a recusa de se envolver com o outro, o que resta para ser vivido? De que servem os objetivos? Delacroix, o manipulado, usado pela estrat�gia vil de Sandrine, quando descobre o ardil, apenas tem a agradecer, porque �dessa forma viveu os momentos mais intensos de sua vida�. Qual � o prazer de Sandrine em vilipendiar o outro? � essa ambig�idade entre o prazer e a sordidez, entre a gl�ria do poder e o pre�o pago por ele que Brisseau radiografa sem nenhuma piedade o universo dos personagens vis, ing�nuos e maliciosos, de Coisas Secretas. Nessa assepsia do viver (�O maior erro de sua vida � se apaixonar�, alertava Nathalie), a �nica possibilidade de sobreviver � o fingimento. Sandrine tem aulas com Nathalie de como fingir um orgasmo. N�o se pode ter um orgasmo de verdade, � preciso agora fingir. Mas enquanto Sandrine finge seu orgasmo, � preciso pensar que uma atriz (Sabrina Seyvecou) estava representando, ou seja, que se finge que se est� fingindo. Qual deve ent�o ser a orienta��o de Brisseau para a atriz? � nessa corda-bamba entre o cinema e a vida que se posiciona o corrosivo cinema de Brisseau. Qual deve ser o pre�o pago para conquistar nossos objetivos, para realizar nossos sonhos, para n�o sermos humilhados e tratados como animais? At� que ponto as hipocrisias, os segredos e esconderijos, os �desejos reprimidos� devem ser ocultados ou expostos? Sem sombras de d�vidas, Brisseau � um pervertido, assim como pervertidos somos n�s, os n�o-pervertidos. Misturando subconsciente freudiano com uma vertente pol�tica aliada � metalinguagem, e ainda recusando os r�tulos do cinema de autor, Brisseau faz um dos mais profundos e imparciais retratos das frustra��es, da m�rbida ingenuidade de todo um estado de coisas. Perverso, provocador e de uma objetividade desconcertante, Coisas Secretas � o grande destaque deste Festival do Rio.
Crist�v�o Bresson (10/10/2003) |