BONS TEMPOS

 

 

BONS TEMPOS

Meli Shiguang, Taiwan/Jap�o, 2002

De Chang Tso-Chi

(Festival do Rio � Esta��o Botafogo 2 � Quarta, 08/10/2003, 18:30hs)

 

Antigo assistente de diretores consagrados como Tsui Hark e Hou Hsiao-Hsien, Tso-Chi, em seu quarto longa-metragem, est� entre os dois t�o diferentes mestres. O entrecho violento lembra Tsui Hark; o estilo contemplativo sobre o cotidiano lembra Hsiao-Hsien, (os dois, diga-se, bem de passagem). Mas entre os dois, Tso-Chi ainda busca seu verdadeiro estilo.

Bons Tempos de certa forma nos lembra Prazeres Desconhecidos, tamb�m exibido no Festival, n�o apenas pelo tema da juventude � procura de um rumo e uma identidade, mas tamb�m pela op��o de quase nunca utilizar nem o close nem o grande plano geral, � busca de um certo estilo relaxado, uma intimidade distante, que acaba por se revelar de um forte vigor est�tico.

Os dois adolescentes de Bons Tempos s�o t�o diferentes e t�o iguais entre si, e entre qualquer jovem. Wei trabalha para a m�fia local, e convida seu amigo Jie para ajud�-lo. Seus temperamentos s�o diferentes: enquanto Wei possui uma tranq�ilidade imperturb�vel, Jie � impulsivo e irasc�vel. Em contato, os dois jovens combinam um pouco de seus temperamentos individuais, mas isso, ao inv�s de ajud�-los, parece ainda mais dificult�-los.

Mas o que funciona em Bons Tempos n�o � a trama da m�fia e as confus�es em que se metem os dois garotos, mas como o filme retrata a quest�o da juventude, entre o desejo de viol�ncia e a necessidade de afeto, refletida nessa �intimidade distante�, expressa numa est�tica contemplativa, descritiva, em que a montagem, o quadro e a dura��o do plano valorizam a indecis�o e a in�rcia dos dois personagens. Por isso, o filme � bem melhor em sua primeira metade, em que ambos os personagens est�o em busca de algo acontecer, ao contr�rio da segunda, em que os dois possuem miss�es e tarefas em dire��o �s quais eles devem perseguir.

  Mas Tso-Chi d� um toque peculiar ao seu filme por dois motivos. Primeiro, por fazer um filme de jovens em que n�o h� nenhum espa�o para a rela��o amorosa ou para qualquer ind�cio de sexualidade. Segundo, por transformar o que teria tudo para ser um estudo sobre a solid�o da adolesc�ncia e sobre a amizade num olhar com um pano de fundo de uma viol�ncia constante. Para coroar isso, ao final, Bons Tempos termina de uma forma amb�gua. A princ�pio, um fatalismo m�rbido, recheado de tr�s mortes: a do rapaz que devia dinheiro, a de Jie, por vingan�a, e o suic�dio da irm� de Wei. Em seguida, um final absolutamente fantasioso, em que o destino tr�gico de Jie � substitu�do por outra possibilidade. A possibilidade de Wei salvar o amigo da morte � o esp�rito de toda a tentativa de aproxima��o entre os dois amigos. Mesmo que a tentativa esteja aparentemente condenada ao fracasso, Tso-Chi termina seu filme com um mergulho, abrindo m�o definitivamente de seu estilo realista em prol de uma esperan�a para seus pobres personagens.

 

Crist�v�o Bresson

(10/10/2003)

 

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