|
A
VIDA NOVA
La
Vie Nouvelle, Fran�a, 2002
De
Philippe Gandrieux
(Festival
do Rio � Esta��o Botafogo 3 � Sexta, 26/09/2003, 22hs)
Neste seu segundo longa-metragem, Philippe Gandrieux
mostra a influ�ncia de seu trabalho em artes pl�sticas. Desde o primeiro
plano, Gandrieux filma como se desse r�pidas pinceladas numa tela em
branco, e realiza um trabalho essencialmente conceitual. Dito isto, A Vida
Nova � um exerc�cio de vitalidade muito em falta no atual cinema
contempor�neo. Radical, leva quase ao extremo um trabalho bastante
consistente em rela��o � imagem, seja com a fotografia (poucos filmes
recentes levaram t�o a s�rio a express�o de que o �cinema � um jogo
de luzes e sombras�) � com a oscila��o do foco, a luz projetada de
encontro � objetiva, o jogo de superf�cies entre os interiores e os
exteriores � seja com a c�mera � uma c�mera raivosa que d� ao filme
uma intensidade instintiva.
Esse trabalho de experimenta��o imag�tica � combinado com um arremedo
de dramaturgia, mas ainda assim, A Vida Nova apresenta algumas das
preocupa��es do realizador: uma dificuldade dos personagens em se ater
ao que lhes � essencial, uma instabilidade perturbadora, a viol�ncia
instintiva que destr�i a possibilidade de harmonia e poesia. Por isso,
Gandrieux est� mais preocupado em destruir do que construir, mas se
engana quem o rotula de mero grafista superficial: quando Gandrieux
procura aos poucos construir uma rela��o (seja no sentido dramat�rgico
propriamente dito, seja quando permeia alguma possibilidade de
envolvimento mesmo no uso da linguagem), o realizador vai destruir
anarquicamente essa pr�pria possibilidade. Com isso, A Vida Nova se torna
um jogo de imagens e apar�ncias como subterf�gio poss�vel para o dif�cil
drama do existir.
Completamente
envolvido num cinema de sensa��es que ultrapassa o sentido descritivo, a
viol�ncia e a ternura convivem lado a lado, mas em seu estudo do submundo
do sexo (claro, como mercadoria) e da viol�ncia, Gandrieux prefere
apostar na impossibilidade do afeto, no curso (quase fatalista) da trai��o
e do desejo (como anti-racional). N�o existe propriamente uma melancolia
nesta constata��o, mas uma insatisfa��o, um desejo do outro, uma solid�o.
Ao final, um conjunto de imagens semi-fantasmag�ricas, at� mesmo
�neo-expressionistas�. Um grito gutural. Para Gandrieux, parece dif�cil
encarar a si mesmo, e a sa�da � a fuga, � a suspens�o do presente, ou
da consci�ncia, como gesto de al�vio. Aguardemos seu pr�ximo filme.
.
Crist�v�o
Bresson
(24/09/2003) |