A S�PLICA

 

 

A S�PLICA

Dakhil, Ir�, 2003

De Dariushi Tari

(Festival do Rio � Esta��o Botafogo 2 � S�bado, 27/09/2003, 18:30hs)

 

O filme de estr�ia de Dariushi Yari � sem sombra de d�vidas um t�pico filme iraniano. Percebemo-lo logo de in�cio, n�o apenas pelo letreiro �Em Nome de Deus�, mas pelo vi�s religioso que paira sobre todo o filme. Esta � sua principal fraqueza, aliada a um didatismo que persegue a maior parte das atuais produ��es iranianas: o �modelo iraniano� e seus temas simples, atores n�o-profissionais, crian�as indefesas, inspirado no neo-realismo, etc, etc.

O filme mostra um choque de gera��es e de culturas. Os moradores de um vilarejo no interior do Ir� se preparam para um tradicional ritual religioso local em homenagem a um l�der local j� morto. Neste ritual, uma fam�lia da regi�o tradicionalmente celebra com rituais de sacrif�cio, e os homens praticam a auto-flagela��o. Um menino passa a ter idade suficiente para participar, mas ele se recusa a se auto-flagelar, recebendo a resist�ncia da fam�lia. De outro lado, um homem chega ao vilarejo procurando um m�dico para curar sua filha. Os moradores est�o, no entanto, muito ocupados com os preparativos, e ainda querem utilizar o cavalo do homem. Ele se recusa a participar, continuando a procurar o m�dico por sua pr�pria conta. O menino e a menina acabam naturalmente se aproximando.

Com isso, Yari investe no tema da cr�tica aos cultos irracionalistas da cultura isl�mica. Yari quer valorizar a liberdade individual e condenar as pr�ticas celibat�rias de motivo essencialmente religioso. No entanto, n�o quer correr o risco de ser condenado por ser contra as tradi��es isl�micas. Quer criticar, portanto, mantendo um respeito. Como solucionar a quest�o?

A sa�da para Yari � o meio-termo, � uma tentativa de concilia��o, que � feita de duas formas. O menino para escapar do a�oite, precisa sacrificar um pequeno bode, seu animal de estima��o. Ele o faz, mas n�o simplesmente para escapar da tradi��o, mas essencialmente como pedido para a cura da doen�a de sua amiguinha. Com isso, Yari investe na liberdade individual, mas sem abandonar a cren�a m�stica e a f� religiosa. Escapar do a�oite, agora, ganha uma conota��o que foge do ego�smo, e investe na solidariedade ao outro. Por outro lado, ao longo do filme, percebe-se que a doen�a da menina � muito menos f�sica que espiritual: � quase um reflexo da descren�a do pai em seu grande l�der espiritual. � medida que o pai parte para um confronto com a aura religiosa (a d�vida, a n�o-participa��o do culto, etc.), sua fraqueza espiritual se converte numa fraqueza f�sica. No momento em que o pai se convence de sua impot�ncia para reverter o rumo das coisas e se entrega � religi�o, momento de mudan�a este refor�ado pelas pr�prias ora��es de sua filha, o caminho para a cura est� aberto.

 N�o deixa de ser uma combina��o h�bil e eficiente, mas sobretudo conservadora. O filho s� resolve o problema deste ano, i.e n�o h� um convencimento por parte do pai e de sua fam�lia da crise de suas convic��es doutrin�rias. H� apenas a ratifica��o da aproxima��o entre o menino e a menina, ou seja, a permiss�o do contato entre as duas fam�lias. O visitante se entrega ao ritual religioso, e tudo acaba �em nome de Deus�.

 Nas quest�es de linguagem, o filme � bastante ing�nuo, retratando de forma linear e plana os conflitos dos personagens, e se revela bem did�tico no enquadramento e na mise-en-scene. Apenas no momento do ritual, surge a c�mera na m�o, com algum interesse, inserindo ao filme um certo componente documental de registro do ritual. Nada mais a acrescentar.

 

Crist�v�o Bresson

(24/09/2003)

 

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