�S CINCO DA TARDE

 

 

�S CINCO DA TARDE

De Samira Makhmalbaf, Ir�, 2002

(Festival do Rio � Cabines � domingo, 21/09/2003, 18hs)

 

O cinema iraniano ganhou amplo destaque no cen�rio dos anos noventa com seu estilo que em v�rias medidas buscava um resgate indireto �s tradi��es neo-realistas. Humanistas, simples no modo de produ��o, em geral abordando o regime fechado e opressor da cultura iraniana (a mulher, a crian�a, etc.), os filmes iranianos ganharam pr�mios nos festivais de cinema ao redor do mundo e conquistaram o �p�blico de arte� do cinema ocidental.

Mas acontece que, calcado num modelo de simplicidade e de repeti��o de seus temas b�sicos, o cinema iraniano tem chegado a uma esp�cie de esgotamento, especialmente quando os assistentes de dire��o passaram a dirigir filmes praticamente imitando a f�rmula de seus mestres. O que era um cinema despojado, um novo olhar sobre uma nova cultura, tornou-se simplesmente modelo gasto e muitas vezes sensacionalista. O que era est�tica, tornou-se quase propaganda. O frescor quase infantil revelou-se esgar acomodado, estagna��o.

*   *   *

 Samira Makhmalbaf, filha de Mohsen Makhmalbaf, de filmes como Um Instante de Inoc�ncia, come�ou no cinema com menos de dezoito anos, certamente sob a batuta do pai. Seu primeiro filme, A Ma��, era surpreendente, porque a simples hist�ria de uma menina aprisionada pelos pais dentro de sua pr�pria casa revelava-se um olhar sobre a liberdade versus a intimidade e sobre a inseguran�a do contato com o outro dadas as tradi��es conservadoras de seu pa�s.

A imensa repercuss�o internacional deste filme consagrou Samira como �a menina-prod�gio do cinema iraniano�. A partir da�, Samira alinhou-se com a tend�ncia do cinema iraniano de �ocidentalizar-se�, de revelar, especialmente aos espectadores europeus, o povo iraniano como �pobres sofredores�, ou seja, de maximizar a vitimiza��o. Se em O Quadro-Negro tal estrat�gia ainda permanecia submersa por um certo vigor de linguagem (a c�mera na m�o, o road movie �s avessas), neste �s Cinco da Tarde todo o estilo e toda a tem�tica do cinema iraniano se revelam quase como um pastiche, um estere�tipo de todos os r�tulos em torno � produ��o do pa�s. O cinema da simplicidade acaba se mostrando como um cinema meramente did�tico e burocr�tico, com uma preocupa��o expl�cita de se alinhar com um �cinema internacional� no que diz respeito � �corre��o� da t�cnica e especialmente � fotografia, que �d� valor� a essa �cultura ex�tica� (valorizando as cores, as texturas, as ru�nas bombardeadas, as roupas das mulheres, os guarda-chuvas, etc.). Por isso, n�o � exagero se chamarmos �s Cinco da Tarde de o Abril Despeda�ado iraniano.

 A ingenuidade da mulher que, ao ter o m�nimo contato com as condi��es pol�ticas de seu pa�s atrav�s da escola, quer se tornar presidente, serve como contraponto � opress�o conservadora/tradicionalista, expressa � perfei��o atrav�s de seu pai. Incapaz de resolver a quest�o, at� porque o estilo de Samira acaba sendo de indireto respeito �s tradi��es e ao mesmo tempo tentando desenvolver um estilo pessoal relacionado � perda da inoc�ncia, Samira opta pelo retorno � peregrina��o, da mesma forma que em O Quadro-Negro. No deserto, nos �ltimos dez minutos, o filme pela primeira vez busca um vigor, no inevit�vel cansa�o de seus personagens, na pr�pria percep��o do desgaste de seu estilo narrativo meramente descritivo. Os velhos param para morrer; a crian�a rec�m-nascida � enterrada; as mulheres de meia-idade prosseguem. Passado, futuro, presente.

 A n�o ser por estes derradeiros dez, cinco minutos, Samira nada acrescenta ao que j� conhecemos do cinema e da cultura dos povos isl�micos. Ao contr�rio, talvez seja um verdadeiro retrocesso. De qualquer forma, �s Cinco da Tarde revela aspectos do esgotamento de um �modelo� e da perversa necessidade de um certo cinema iraniano de �ocidentalizar-se�.

Crist�v�o Bresson

(24/09/2003)

 

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