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A
ESTA��O DESERTA XXX,
Ir�, 2003 De
Alireza Raisian (Festival do Rio � Esta��o Botafogo 2 � Sexta, 03/10/2003, 18:30)
Com argumento de Abbas Kiarostami, A Esta��o Deserta � o melhor dos filmes iranianos exibidos neste Festival do Rio. � certo que o filme de Alireza Raisian vai trabalhar com os c�digos estritos do cinema iraniano: a estrada e o viajante como um caminho e percurso interior (Vida e Nada Mais, O Gosto da Cereja, n�o por acaso do pr�prio Kiarostami), a simples vida dos vilarejos, a escola e as crian�as (O Jarro, Onde Fica a Casa de Meu Amigo?), o deficiente f�sico como fator de nossa como��o (Tempos de Embebedar Cavalos, A Ma��), etc. etc. Mas ainda dentro desses c�digos, Raisian faz uma obra puramente cinematogr�fica, com uma sensibilidade particular, especialmente no tratamento do tempo e ao se debru�ar sobre a quest�o do aprendizado e do contato com o estrangeiro, o principal tema de seu filme. Os primeiros quinze minutos evidenciam a proposta de
Raisian. Em longos planos-seq��ncia, um motorista em seu carro percorre
as estradas no meio do deserto. Subitamente, o carro p�ra, e s� ent�o
percebemos que no banco do carona estava sua mulher, num simples e belo
uso de extracampo. Ela acorda, e o ato de �despertar� desta
estrangeira no long�nquo vilarejo � tematizado lentamente ao longo de
todo o filme. O motorista � um fot�grafo, o que s� nos ajuda a
construir a rela��o do realizador com os habitantes do vilarejo. O carro quebra (estamos aqui quase diante de um s�mbolo
griffithiano), e a partir dessa ruptura, o casal parte para o contato poss�vel,
cuja fragilidade ser� o cerne de todo o filme. O vilarejo � praticamente
ocupado por crian�as: as mulheres n�o saem de casa; os homens foram
trabalhar numa cidade distante. Enquanto o fot�grafo sai com o professor
( o �nico adulto do vilarejo) para providenciar o conserto do carro, sua
esposa o substitui na escola. A partir de ent�o todo o filme se debru�ar� sobre
a quest�o do aprendizado, como espelho da dificuldade do contato entre as
duas realidades t�o distintas. A professora praticamente nada ensina aos
alunos; ao contr�rio, aprende com eles. Passando-se em um �nico dia, a
professora se limita a tentar conhecer seus alunos e os h�bitos do
professor a quem ela substitui ( carregar a menina deficiente, cortar as
unhas dos alunos, etc.) No �nico instante em que a professora tenta
efetivamente �ensinar� aos alunos, fica evidente o abismo entre sua
proposta acad�mica de ensino (�quem foi Crist�v�o Colombo?�). Raisian trabalha com met�foras simples, mas
absolutamente cinematogr�ficas e efetivas, porque seu filme se resolve
menos nos di�logos, do que em termos expressivos na imagem. Um exemplo
disso � um trem que corta a plan�cie do deserto, que serve como espelho
do desejo de fuga dos pequenos habitantes do vilarejo. Numa das seq��ncias,
os alunos levam a professora at� um trem abandonado, e enquanto a
perplexa professora passeia pelos corredores do trem, os alunos brincam de
se esconder e revelar para ela. Isso � um exemplo de como o assunto do
contato e do aprendizado � expresso ao longo de todo o filme. O desconcertante final � outro t�pico exemplo de s�ntese da proposta do realizador. O carro fica pronto e ent�o o casal est� pronto para partir. O carro avan�a, e as crian�as desesperadamente correm atr�s do ve�culo. A mulher pede ao marido para parar, e conversa com as crian�as para voltarem. Mas assim que o carro d� a partida, as crian�as voltam a perseguir o carro. A cena � repetida e repetida, cerca de cinco vezes. Uma imensa grua � a �nica utilizada em todo o filme � mostra a crian�a deficiente abandonada e indefesa, enquanto, distante, as demais crian�as correm em v�o atr�s do carro do casal, lembrando-nos o conhecido conto do flautista de Hamelin. Neste final em aberto, absolutamente inconcluso, Raisian sintetiza a dificuldade do contato entre a professora e os alunos, e a improbabilidade de suas esperan�as.
Marcelo Ikeda (08/10/2003) |