A ÚLTIMA CARTA

 

Como é possível para o cinema reproduzir o massacre dos judeus pelos nazistas? O registro histórico está firmemente calcado em um passado distante, mas ao mesmo tempo como é importante relembrá-lo nos dias de hoje após o ataque das torres americanas! Mas como é possível fazê-lo sem distorcer o tom do registro, sem querer empurrar goela abaixo do espectador uma dose de dramaticidade para simplesmente comovê-lo, mas ao mesmo tempo sem deixar de transmitir o profundo pesar e o horror dessa situação? Como é possível transcender seu argumento para que não apenas transmita algumas informações sobre o incidente, mas para que seja um pequeno e vigoroso ensaio de resistência e triunfo à vida?

Em torno de todas essas e tantas outras complexas questões que envolvem a essência do fazer artístico, é que o famoso documentarista Frederick Wiseman se deparou ao realizar este A Última Carta. Como documentarista, um dos mais fiéis cineastas do “cinema direto”, Wiseman, ao longo de décadas na realização, utilizou um cinema de austeridade formal em torno das grandes instituições americanas: o sistema psiquiátrico, os hospitais, a polícia, a justiça, entre outros. Agora, em sua primeira incursão na ficção, Wiseman fez um semi-documentário, completamente ligado ao seu trajeto cinematográfico mas ao mesmo tempo um projeto de uma liberdade poucas vezes imaginado. Exclusivamente preso ao texto literal de uma carta escrita por uma das vítimas judias do massacre alemão na Segunda Guerra para seu filho, Wiseman fez um cinema da economia. Restringindo-se ao mínimo de elementos visuais e estilísticos, valoriza o texto em si, confere um tom sóbrio e absolutamente respeitoso à dimensão de toda a tragédia envolvida, e de forma quase milagrosa essencialmente transforma seu simples teatro em cinema do espírito.

A Última Carta, realizado num belo preto-e-branco, é uma atriz num monólogo, recitando o texto da carta, num cenário teatral de fundo negro infinito, pontuado com uma ou duas luzes duras que projetam sombras ao longo de todo o cenário. Com um enfoque que lembra seja pela austeridade seja pelo tom visionário e verborrágico o Joana d´Arc tanto de Dreyer quanto de Rossellini, Wiseman é extremamente feliz ao concentrar a estética de seu filme num ponto muito simples mas absolutamente impressionante: o confronto entre luz e sombra. Dialogando de forma renovada com o próprio modelo do expressionismo (no tema do destino, no uso da luz, no reflexo do espelho, etc.), com a total ausência de qualquer elemento sonoro a não ser a própria voz da atriz, o não-realismo da encenação se choca brutalmente com o registro documental da carta em si. Dessa forma, Wiseman resolve de forma magistral um conflito entre a impotência da arte, sua incapacidade de recriar uma tragédia de tamanhas proporções, e sua necessidade de fazê-lo e ao mesmo tempo sua admirável potência em recriar-se.

Por isso, quem acusar A Última Carta de ser teatro é a mulher do padre. Brilhante ensaio sobre os limites do processo artístico, completamente ao avesso do tom de vitimização ou de espetacularização tão em voga no cinema de hoje, A Última Carta faz de sua impotência signo de transcendência, faz de sua missão impossível reflexo da mais desconcertante humildade e respeito ao ser humano, faz de seu tom menor insuperável aliado à força de seu chamamento e ao clamor inconfundível de um cinema que pulsa vitalidade e urgência.

Vindo das sombras para desvelar-se, para então conformar-se ao seu destino do retornar a elas, torna-se subitamente de um escopo ainda mais complexo ao tocar no eterno tema da indagação quanto à motivação para a vida ante a inevitabilidade da morte. E assim, Wiseman faz seu adendo metalinguístico: ante à impotência do cinema, a pungência de sua realização. Partindo de um americano em um filme totalmente falado em francês, o cinema não poderia esperar reflexão mais notável sobre os cursos do mundo de hoje após o acirramento das questões étnicas e dos conflitos em torno do poder. “Vie! Vie! Vie!” é o apaixonante e redentor final de uma das experiências mais contundentes do atual cinema contemporâneo. “Vie” ao Mestre Wiseman.

 

Marcelo Ikeda

(07/10/2002)

 

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