S P I D E R

 

 

� curioso que exatamente no mesmo pa�s em que � produzido um blockbuster das dimens�es de um homem-aranha, haja em paralelo um filme como Spider, de David Cronemberg. Este diretor canadense, que cada vez mais vem aprofundando seus desejos de realizar um cinema independente do modo de produ��o da ind�stria americana, sempre foi conhecido como um �homem de ci�ncias�, um cientista. Seus filmes sempre foram vistos como pequenos estudos sobre as pervers�es humanas, atrav�s de semi-tratados cientificistas e futuristas. Esse vi�s sempre provocou uma s�rie de mal entendidos em torno da obra desse singular realizador. Spider, em bom tempo, vem reduzir v�rios deles.

Enquanto eXistenZ, j� pelo nome, viria para confirmar o perfil que se espera de um filme de Cronemberg, numa esp�cie de jogo futurista, num tratamento �gil e moderno da narrativa, Spider surpreendeu as plat�ias do Festival de Cannes, ao exibir um estilo s�brio e refinado pouco peculiar ao cinema de Cronemberg, Mas � um ledo engano afirmar, como j� se vem dizendo precipitadamente, que Spider � um filme at�pico de sua filmografia.

*  *  *

Em Spider, o que nos encanta � a maturidade de Cronemberg em se ater a apenas ao que � essencial. Construindo seus filmes com poucas palavras e di�logos, com uma c�mera extremamente austera e um estilo de narrativa, especialmente no corte, absolutamente cl�ssico, Cronemberg aprofunda seus del�rios n�o no transe de uma transubstancia��o formalista ou num exerc�cio narrativo, mas converte o absurdo de sua estrutura aos del�rios de seu personagem principal.

Por partes. O primeiro plano de Spider � a chegada de um trem na esta��o, n�o muito diferente do plano-marco dos Irm�os Lumi�re. A Steadicam lentamente percorre a dezena de pessoas que saem de quadro para ganhar suas vidas, at� que, ao final do desembarque, no final de um plano de longa dura��o, vemos a presen�a de Spider, o personagem de Ralph Fiennes. Dali em diante, nunca abandonamo-lo. Ainda que em determinado plano, ele n�o esteja em quadro, lentamente revela-se sua presen�a impl�cita.

Os primeiros dez minutos de Spider s�o de um vigor indescrit�vel. A c�mera que oscila bruscamente entre o plano geral e o plano detalhe (v�rias vezes utilizadas ao longo do filme) acompanha os detalhes de cada movimento de Fiennes, cuja pequena a��o particular acaba intensificada pela aus�ncia de di�logos. Uma grua um tanto at�pica para os filmes de Cronemberg termina quando Spider bate duas vezes na porta da pens�o em que ficar� hospedado.

 *  *  *

 Mas como est�vamos dizendo, Spider n�o � um filme at�pico na filmografia de Cronenberg, mas ao contr�rio s� ratifica as pretens�es deste singular realizador. Desta vez, Cronemberg volta ao passado, numa pomposa descri��o da hist�ria na d�cada de 50 no interior americano, usa os artif�cios formais de um cinema cl�ssico, para descrever de forma concisa e inspirada os del�rios patol�gicos (um deles e talvez o principal, a esquizofrenia) de seu personagem.

Sim, porque o que torna Spider um filme t�pico de Cronemberg � a investiga��o das teias. As teias de Cronemberg envolvem o homem num processo de animaliza��o, em que a racionaliza��o (e olhem que Cronemberg sempre foi um �homem de ci�ncias�) sofre uma crise por dist�rbios parapatol�gicos que geram uma instabilidade. Essa crise em geral � acompanhada por um processo de fuga que, na verdade, se revela como parte de um processo de retorno. � dessa forma, concreta, geogr�fica, como s� o cinema americano pode ensinar, que Cronemberg consegue assinalar uma tentativa de questionamento. Os indefesos e mutilados personagens de Cronemberg vestem m�scaras que o desnudam. A sociedade, no entanto, quase sempre os trata como indiv�duos marginais, e seu desfecho � quase sempre melanc�lico.

 �Homem de ci�ncias�, as teias de Cronemberg envolvem um processo f�sico. S�o os n�s das teias costuradas por Spider que permitem puxar a alvanca do fog�o de g�s, e provocar a trag�dia.

 Mas nem sempre Cronemberg � t�o racionalista. Muitas vezes, suas teias s�o tamb�m as teias do tempo. Quase como em Videodrome, em Spider, o flashback � reavaliado de forma criativa (apesar do mote b�sico ser o mesmo de Morangos Silvestres), e a quest�o da d�vida ou, acima de tudo, a da identidade, s�o abordadas pelo diretor como parte de um decurso do tempo e como movimento do esp�rito. Nesse processo, � importante tamb�m observar como o olhar � parte fundamental do projeto de Spider. Al�m do tema da culpa e da mem�ria (por exemplo, o extraordin�rio uso do �caderninho� de anota��es�, sem d�vida o melhor recurso do filme), a altern�ncia entre o Spider �Fiennes� e o Spider menino lan�am ao longo de todo o filme uma rela��o de d�vida ente o presente e o passado, entre a presen�a e a aus�ncia, entre a narra��o e a descri��o, entre a carne e o esp�rito, que tornam Spider um filme exemplar.

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 Por outro lado, Spider � um filme convencional, que fecha todas suas possibilidades, justificando-as na doen�a mental do pobre menino que vira uma v�tima. � um filme que se amarra num flashback que, apesar de todas as suas ambig�idades de presen�a/aus�ncia, � o mesmo flashback explicativo do cl�ssico cinema americano. � cheio de psicologismos redutores e de temas psicanal�ticos at� desgastados (a m�e-mulher, etc.). Tem algumas solu��es grosseiras (o enterro da m�e, a rea��o caricatural do pai no incidente, etc.). Mas isto � uma outra hist�ria.

Marcelo Ikeda

(23/09/2002)

 

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