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Claire Denis é uma das cineastas mais íntimas e inventivas do cinema francês contemporâneo, e um novo filme da diretora é sempre aguardado com ansiedade no Festival, ainda mais porque seus últimos trabalhos infelizmente não têm sido exibidos comercialmente no Brasil. Assim foi o caso dos anteriores Bom Trabalho e Desejo Insaciável, que o autor dessas linhas deixou de conferir por pura e tola teimosia contra o atual cinema francês. Após
um filme impactante como Desejo Insaciável, Sexta à noite pode surpreender
pela leveza e pelo toque feminino de sua abordagem. É um filme claramente
menor, mas não deixa de torná-lo um espetáculo recomendável. Até porque, a
partir de um argumento até certo ponto frouxo, Claire Denis faz uma obra de
cinema. Uma
mulher está de mudança de seu apartamento para a casa de seu namorado. Está
às voltas com caixas e objetos a serem empacotados. Numa sexta à noite, ela
resolve jantar com amigos, antes de ir finalmente para sua nova casa. No
caminho, depara-se com um enorme engarrafamento, causado por uma greve no serviço
de transportes. Acaba se envolvendo com um homem, após oferecer-lhe carona.
Passam a noite juntos. No dia seguinte, ela sai do hotel sem lhe despedir e
provavelmente retorna para sua nova casa. Filmado
quase todo em planos-detalhe, com um frescor de intimidade construído puramente
pela linguagem cinematográfica (especialmente enquadramento e montagem), atento
na construção dos mais singelos detalhes, especialmente quanto à movimentação
corporal, Sexta à noite é um simples e elegante retrato individual de uma
classe média parisiense indecisa entre a segurança de um mundo confortável e
a possibilidade de viver uma nova aventura. Não deixa de ser levemente solitário,
sobre a dificuldade de expressar os sentimentos, com poucos diálogos, e soluções
narrativas bem consistentes (por exemplo, o filme situa toda a questão da mudança
e de seu namorado François, que não aparece no filme, sem o recurso didático
da voz-over nem flashbacks). Sexta
à noite é um filme sobre um percurso, sobre um engarrafamento. O filme começa
brilhantemente com uma série de planos estáticos, acompanhados de uma música
bastante sugestiva, da cidade de Paris. No interior do apartamento, a mulher
acaba de empacotar seus pertences, e tem uma brutal dificuldade entre jogar fora
ou guardar determinado pertence. Indecisa, ela quase sempre resolve guardá-los,
levá-los consigo ainda que para uma nova vida. Quem ao realizar essa mudança não
se pôs na mesma situação? É dessa forma simples que Claire Denis apresenta
de forma brilhante todo o drama central de sua personagem: sua insegurança e
seu desejo de manutenção de uma ordem, sua dificuldade em libertar-se do
passado, sua fragilidade. No
engarrafamento, um estrangulamento de uma continuidade, um percurso
interrompido. Mas por trás da paranóia dos parisienses, na idéia do eterno
percurso (as pessoas não conseguem chegar aos seus destinos -
o restaurante e o hotel acabam vazios), vinga a ternura com que Denis
filma em planos detalhe os faróis dos carros, o clima frio, o som da rádio que
aconselha que os motoristas dêem uma carona aos transeuntes, culminando com o
doce sono da protagonista ao volante. Nessa
doce loucura da possibilidade da aventura por uma só noite, do encontro com um
desconhecido sedutor, do atalho que permite desvencilhar-se, ainda que
peremptoriamente, de uma idéia de destino, do “onde chegar” (os amigos que
a protagonista iria encontrar são quase um exemplo do que ela e François
deveriam se tornar – note a admirável ambigüidade em relação ao papel da
maternidade), Claire Denis observa a definitiva aproximação dos dois
personagens (quando ela desce do carro para procurá-lo) com grande sabedoria.
É a forma como filma a garota que joga um fliperama (apenas um olhar define
toda uma relação feminina de brutal inveja e de fragilidade) ou como a
protagonista percebe a compra de camisinhas numa rota máquina ao lado do
banheiro num campo-contracampo extraordinariamente simples. No delicioso
encontro no restaurante, a observação do casal ao lado, de um contato
meramente mesquinho ou de uma relação que se mantém pela inércia. Num
motelzinho de terceira categoria, completamente vazio devido ao engarrafamento,
o casal se entrega diante de uma câmera formidavelmente livre, sem culpas,
prosseguindo sua estética de planos detalhe, inúmeros pulos de eixo e pequenas
elipses temporais. O dia seguinte revela o final da pequena fábula feminina de Denis. A mulher, sem se despedir do homem (ao contrário do que o cinema sempre coroa uma relação homem-mulher), deixa o hotel ainda de manhãzinha. Ela não procura mais o carro, resolve caminhar pelas ruas, tentando ainda retornar à sua idéia inicial de percurso. Agora, seus passos aparecem em plano geral. Um sentimento de liberdade invade levemente a tela, terno e singelo, mas ao mesmo tempo difícil, no limite entre a necessidade de voltar, o desejo pela segurança e a ânsia por um novo percurso.
Marcelo Ikeda (07/10/2002) |