SAMBA CANÇÃO

 

Rafael Conde, após a repercussão de seu premiado curta Françoise, parte para a realização de um primeiro longa-metragem. Após o dramático Françoise, alguns podem se surpreender com Samba Canção, uma comédia metalingüística sobre um cineasta em busca de recursos para realizar um primeiro filme. Mas na verdade Samba Canção prossegue uma visão de cinema claramente estabelecida com Françoise, e na verdade, evidencia alguns dos méritos do elogiado curta (que aqui devo admitir não estar entre seus grandes admiradores...), como um trabalho de linguagem e preparação, em termos narrativos, para seu primeiro longa.

O que mais nos admira em Samba Canção – e isto é um mérito dada nossa geração de cineastas e dado o desafio da realização de um primeiro longa – é que Rafael Conde sabe como contar uma história. Com um roteiro bem amarrado, apesar de todas as suas descontinuidades, o filme possui um bom ritmo em termos de narrativa, suas pausas e momentos de virada. Conde, através da trajetória de seu cineasta, se permite um pequeno inventário pessoal do que seja o próprio cinema. Por isso, o filme trafega, quase sempre em tom de comédia ligeiramente nostálgica, do drama à comédia rasgada, do policial ao terror B. Algumas piadas talvez digam mais respeito a quem seja do meio cinematográfico, do que especialmente o grande público. Mas não deixa de mostrar, apesar de sua proposta claramente superficial, várias das dificuldades em se realizar cinema no Brasil de hoje.

Samba Canção é um filme popular que possui até um ou outro trabalho de linguagem mais criativo (por exemplo, a mudança de bitola entre o 16mm, o PB e a cor, e até o super8), e mereceria ser exibido num circuito mais amplo. É um filme até inconseqüente e um tanto desgastado em relação ao tema do cineasta brasileiro na luta para realizar seus filmes, mas não chega a errar pela opção pelos meios tons, sendo um filme discreto, sincero e um entretenimento razoável. Para um primeiro filme, não decepciona. Ao contrário, Rafael Conde mostra que possui algum potencial em termos de um cinema narrativo dirigido a um público médio (sem ser absolutamente popular nem um típico filme de arte). É um nome para ser observado.

Marcelo Ikeda

(26/09/2002)

 

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