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Não sei porque resolvi assistir a esse filme do qual não possuía praticamente nenhuma informação. Na verdade, sei sim: a sinopse me interessou. É uma história de um renomado escritor italiano que ganhou o Prêmio Nobel, e resolveu ir de carro para buscar o prêmio, tendo como companhia um jovem jornalista. No caminho, trocam idéias sobre a arte e a vida. Sinopse
nada promissora. Ainda mais porque eu também já escrevi sinopses para o
Festival, e sei bem como se escrevem essas sinopses. Mas devo confessar que
gosto dessas meditações meio bregas sobre a vida. E além disso recentemente o
tema “envelhecer” tem atraído minha atenção. Sinto-me desesperadamente
velho. * * * Mas
vamos ao filme. O que eu esperava era aquele retrato meio Morangos Silvestres, só
que cheio de lugares-comuns, com um velho aborrecido que vai descobrindo o valor
das “coisas simples da vida” ao contato de um jovem meio inconseqüente. E
foi justamente isso. O filme é bem convencional, em alguns pontos meio
grosseiro em termos de roteiro e suas transformações. Mas algumas vezes nos
faz pensar. Os
italianos têm um tom muito particular. Ao contrário do filme do Bergman, nesse
tem que ter uma relação carnal. O menino come todas as mulheres pelo caminho.
O velho não, e provavelmente não o fez quando tinha a idade do menino. E agora
também não o pode fazer: seria algo meio ridículo, mesmo se ele pagasse para
isso. O velho então meio que se sente no lugar do menino quando paga uma
massagista para ir para a cama com o garoto. Tem uma passagem, com uma atriz,
que o menino chega a dizer: “Você a seduziu, eu só completei sua obra”.
Muito esquisito. Tem uma hora que o velho meio que finge um ataque cardíaco só
pra ver a tão simpática e elegante atriz que confessara ver sua fã. A porta
do quarto se abre e percebemos que a atriz estava na cama com o menino. Há um rápido
contracampo do velho numa cadeira com a mão no peito. É meio sinistro. *
*
* O
velho chega ao local até onde ele tinha combinado com o tal jornalista que iria
acompanhá-lo. O escritor pensa romanticamente que o jovem o admira, que eles
tornar-se-iam grandes amigos, que o menino iria ser seu discípulo e render-lhe
homenagens, embasbacado com suas lições sobre a vida e a arte. Bobagem.
O menino responde que eles tinham combinado apenas até ali, e que ele quer ir
embora. O famoso escritor lhe oferece uma proposta de emprego. O garoto nega,
precisa voltar para comer aquela atriz de antes. O garoto diz que fez uma poesia
para o espetáculo da atriz. O velho fica contente, pede para recitar. É uma
bela poesia, sobre como a vida é fútil, como se deseja a morte. “Bravo!”,
o velho exclama, “é uma bela poesia!”. Sabemos que o menino apenas a copiou
de uma mulher inválida e cega que encontrara no início do filme. O
velho viaja, dessa vez sozinho, para a cidade onde receberá o prêmio. Ele faz
um jogo de palavras: “Nobel” e “ignobel”. O carro às vezes levemente
derrapa na neve quando ele solta as mãos do volante. Numa dessas vezes, seus
olhos se arregalam, a tela congela. O filme acaba. * * * Prêmio Nobel é um filme fraco. Não sei se valeu meu tempo ou o valor do ingresso.
Marcelo Ikeda (30/09/2002) |