JAPÃO

 

Este primeiro longa-metragem do mexicano Carlos Reynadas de fato impressiona pelo vigor e pela coragem com que se entrega ao trabalho de construção de uma linguagem nova e sem concessões. De uma intensidade pungente, que oscila entre uma contenção monossilábica e um desejo incontido (até típico de um iniciante) de mostrar a qualquer custo o que se deseja filmar, Japão é um tour de force muito em falta no atual cinema contemporâneo: estudo ambicioso que investe de forma nova e inventiva no tratamento de tempo, com questões filosóficas sobre o sentido da existência (que muitos precipitadamente associaram com um Tarkovsky) e uma vontade colossal de fazer cinema.

Filmado e fotografado com um vigor impressionante num cinemascope em super-16mm que fornece um granulado vigoroso, afastando-o visualmente das tentações de uma fotografia “limpa e publicitária”, com um trabalho de câmera entre o exterior e o interior com um curioso trabalho de mudança de diafragma, em longos planos-seqüência, Japão não deixa de ser um filme que mostra uma visão de América Latina que os europeus querem ver (os simples e pobres habitantes do interior, a tendência ao documentário), mas que o faz para exatamente desconstruir a visão de piedade e redenção que se espera de um filme latino-americano, com um trabalho de linguagem nada simples que o distancia completamente do modelo iraniano ou neo-realista.

Mas se Japão é um pequeno estudo sobre a inevitabilidade da morte, a busca de um sentido para sobreviver, mas também sobre a impotência para acabar definitivamente com tudo, ele também o faz na forma como explora o documentário e a ficção. Claramente filmado com tons documentais, registrando o cotidiano do pequeno vilarejo no interior do México, com a participação dos moradores locais, em  duas cenas chega a colocar ao limite suas próprias intenções. No primeiro, quando um grupo de crianças em fila caminha diante da câmera. As crianças olham para a câmera e para o operador de câmera antes de sair de quadro, claramente denotando o caráter de fabricação. Após este extremamente longo plano seqüência, um absolutamente falso contracampo mostra o protagonista como que se estivesse observando as crianças. A segunda cena é o impactante registro do homem bêbado que canta uma canção de separação, num estilo completamente documental, em que um de seus companheiros de trabalho, chega a até mesmo citar que tudo aquilo é um filme.

Dessa forma, a brutal e incontida força da direção nunca está oposta à debilidade esguia do protagonista, mas ao contrário se confunde com ela, entre a necessidade de um libelo de liberdade e de resistência ao desejo de morte mas também de um registro simples sobre uma sociedade quase primitiva que ali sobrevive. Seu estudo sobre o tempo é na verdade um retrato de como a cada dia o protagonista sente o tempo passar. Na história de amor improvável que se desdobra, o homem e a velha são também o retrato de uma decadência física, de impotência, de perversão e de instinto.

Ainda que algumas vezes Japão descambe para os pretensiosos cacoetes de um primeiro filme, com alguma desarticulação entre seus elementos de linguagem, é inegável que se trata de uma experiência intensa, que cumpre o papel que se espera de um primeiro filme, de um nível de ousadia e de competência na realização surpreendentes. Esperamos que um segundo filme comprove que Reynadas seja tudo isso mantendo os pés no chão.

Marcelo Ikeda

(04/10/2002)

 

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