IRREVERSÍVEL

 

1 – A surpresa

Filmes baseados em uma surpresa em geral causam um problema para o realizador. Hitchcock já dizia que se durante um filme uma bomba estourar sob uma mesa, não há a menor graça. Ao invés disso, ele enfatizava a preparação: era preciso que todos soubessem que a bomba iria estourar, menos os personagens em torno da mesa. Com isso, cada segundo, enfatizado pela montagem (por exemplo, com planos de um relógio que marca alguns segundos antes da hora marcada para a explosão), torna-se crucial para o espectador.

Em um filme como Irreversível, a questão retorna em outros termos. O filme tem uma história simples: uma mulher é estuprada brutalmente até a morte, e seu namorado persegue o assassino em busca de vingança. Este argumento, que já foi desenvolvido de inúmeras formas, ganha, na visão de Noe, uma impressão de impacto. É preciso que o espectador se sinta vulnerável, saber como a vida pode ganhar contornos inesperados, transformando uma situação confortável num verdadeiro inferno. A transformação é súbita: Mônica Bellucci tinha uma vida completamente normal até que é barbaramente estuprada e morta. Portanto, não pode haver preparação. Mas como então passar para o espectador essa sensação de impacto?

2 – A solução formalista

A solução encontrada por Noe é tipicamente uma solução formalista, como está tão em voga no cinema de hoje. Noe resolveu contar a história de trás para frente, de modo que o espectador que vá ao cinema sem nenhuma informação sobre o filme se sinta completamente desorientado nos primeiros vinte minutos de filme. No entanto, Irreversível não é contado de trás para frente como Palíndromo. Seguindo o curso dos acontecimentos em sua trajetória temporal linear, a narrativa pode ser dividida em blocos, por exemplo, em oito blocos, de A a H. Em cada bloco, portanto, o desenvolvimento é completamente linear. A solução de Noe é expor primeiro o bloco H, depois o G, e assim em diante, até o bloco A.

3 – Os problemas decorrentes dessa solução

Uma vez que o espectador recebe dados mínimos para se localizar no filme, ele obviamente procura uma motivação para as tão violentas ações expostas no início do filme. Portanto, o filme acaba reforçando uma lógica causal, uma cadeia de causa-efeito. Se as ações do protagonista são tão violentas, qual é o motivo que gerou sua revolta? Daí descobrimos que uma mulher foi morta, o que traz novas perguntas. (Quem é essa mulher? Como ela morreu?) Daí toda a elaboração do filme deve ser construída de uma forma a revelar as entrelinhas de sua construção como roteiro. Todas as justificativas e motivações devem surgir apenas para despertar novas perguntas para o espectador, para que seu interesse no filme naturalmente se intensifique. Todo o filme passa então a ser uma busca insana por uma causa primeira, por um porquê.

Com isto estamos querendo contrapor duas lógicas: a de narrar um filme de trás para frente, e a de uma identificação do espectador, ou melhor, uma lógica narrativa com os naturais pontos de virada, clímax e acirramento das motivações.

4 – Por que Noe resolveu mal?

Noe fez seu filme em certa medida ser uma fracassada experiência narrativa exatamente porque os trinta minutos finais do filme não possuem nenhuma justificativa a ser descoberta pelo espectador. Ele passa a não ter mais nenhuma pergunta, e o final passa a ser meramente figurativo, ilustrativo, apenas para reforçar o contraste com o trágico acontecimento da protagonista. Esperamos o término do filme sabendo perfeitamente sua lógica de construção, que já foi integralmente desvelada para o espectador. Sem conflitos, sem motivações, sem surpresas, o jogo formalista de Noe acaba muito antes de seu final. Este é o problema dos filmes de impacto: segurá-lo até o final para o espectador, pois como sabemos, a explosão de uma bomba, gera um grande susto, mas logo passa.

5 – Uma piada machista

Uma piada machista pode ser feita a Irreversível: a expectativa em relação a um grand finale se cumpre, e o ponto mais aguardado do filme fica realmente apenas para as últimas cenas: ver Mônica Bellucci como veio ao mundo, numa longa cena íntima com seu amante. Talvez seja por isso que a platéia masculina não saiu em retirada do cinema, pois pressentia o que o final lhe reservava, um clímax, um enorme final feliz.

6 – Um filme moralista

Em última instância, por trás do formalismo e da violência aparentemente gratuita de Irreversível, vemos um filme tipicamente moralista. Na busca insana das causas primeiras e das características dos personagens, vemos um cinema construído para comover o espectador e lhe tascar emblemas moralistas. “Não saia sozinha à noite!” “Não atravesse túneis escuros!” “Não deixe seu namorado usar drogas!” e até mesmo “Se você vir alguém sendo atacada num túnel, finja que não está percebendo nada, e saia de mansinho!”.

Todas as cenas posteriores ao estupro, isto é, as que de fato ocorreram antes do incidente, servem para reforçar a suposta brutalidade do acontecimento. Daí a lânguida cena de amor entre os namorados, e inclusive a hipótese da gravidez (essa é a notícia que Bellucci contaria a sua amiga durante a festa!). Durante a transa, há até a cogitação do sexo anal, entrando em contraste com a cena do estupro.

7 – Considerações finais

Irreversível tem como leitmotif uma espiral, uma espécie de roda giratória que enfatiza a gratuidade da vida, uma espécie de roleta que gira para a sorte ou azar dos envolvidos. Em A Última Gargalhada, Murnau utilizou o recurso na própria diegese do filme com maestria, através da porta giratória do hotel em que o Emmil Jannings trabalhava. Por isso, a câmera sempre salta de um para outro bloco com um movimento de câmera em espiral, utilizado em várias partes do filme, especialmente no início. Ao final, numa cena lúdica com crianças brincando em um jardim, o tema fica explícito, quando uma espécie de mangueira em esguicho nos confirma o movimento. O final, experimental, trazendo novamente o formalismo do filme, com flashes alternando fotogramas brancos e negros, traz a idéia de alternância e de acaso.

“O tempo destrói todas as coisas” – este é o dizer filosófico com que Noe termina seu filme formalista. Aqui, Noe faz uma conclusão que não necessariamente decorre de seu filme. Irreversível não fala propriamente sobre o tempo. Poderíamos mais propriamente afirmar que fala sobre a natureza humana, o papel do acaso, a instabilidade da vida, a fragilidade dos seres humanos, mas seu filme tem uma quebra abrupta demais para que se possa afirmar que se discorre sobre o tempo. A decadência dos personagens, ou melhor, sua destruição, não foi levada a cabo pelo tempo. Pelo que vemos, não há como ser determinista: foi um trágico acidente. Ele não acontecerá necessariamente com você.

Por fim, Irreversível possui uma trabalho de câmera memorável. É todo calcado em longos planos-seqüência que driblam algumas dificuldades técnicas (o trabalho com atores, a movimentação ao longo do cenário – povoado de pessoas como na festa –, os reflexos no espelho) de forma irrepreensível. A câmera no início é excessivamente nervosa, e no final acompanha o romance entre os namorados com singela ternura. A famosa cena de estupro, que dura quase quinze minutos, é filmada com uma câmera baixa, praticamente parada. É talvez a primeira cena em que a câmera deixe de trepidar de forma exagerada.

Se havia uma expectativa em relação à suposta cena violentíssima de estupro, a cena mais violenta de Irreversível é sem dúvida o ato de vingança. Com um extintor de incêndio, a vítima recebe inúmeros golpes em sua cara, até torná-la completamente desfigurada. Os golpes não acontecem fora da tela, mas vemos (a cena é um tanto escura, mas vemos sim) toda a crueza e a violência dos movimentos..

Marcelo Ikeda

(04/10/2002)

 

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