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Finalmente o p�blico carioca tem a oportunidade de conferir um trabalho de Fruit Chan, neste seu �ltimo filme, exibido no Festival de Veneza em 2001. Dois ou tr�s filmes anteriores de Fruit Chan tiveram boa recep��o no circuito de festivais (The Longest Summer, Made in Hong Kong), tornando-o um diretor com uma s�lida posi��o no cen�rio de um cinema oriental alternativo, com filmes que falam sobre uma �real� Hong Kong, com or�amentos min�sculos e atores n�o-profissionais. �Uso-os porque s�o mais baratos�, chegou a declarar o diretor � revista TIME. Irregular, inquieto, amb�guo, o novo filme de Fruit Chan se baseia num improv�vel dilema: o desejo e a impot�ncia, a pol�tica e a ingenuidade. Nenhum filme pode se chamar Hollywood, Hong Kong em v�o, e Fruit Chan obviamente sabe disso. Os estreitos corredores da improvisada vila onde uma popula��o marginal que ignora os avisos do Governo de que a �rea a qualquer momento ser� demolida vivem � sombra de um suntuoso edif�cio comercial: Hollywood. De forma bem humorada, Fruit Chan tra�a um painel pol�tico da domina��o cultural de Hong Kong. Um criador de porcos vive com seus dois filhos, at� que uma mulher da cidade chega para modificar suas vidas. Mas ao final se descobre que ela seduz suas ing�nuas v�timas para em seguida tirar-lhes dinheiro, amea�ando-as com um poss�vel processo por seduzir mo�as com idade inferior a 16 anos Apesar do estilo nada convencional de Chan e do toque at�pico de com�dia dado ao filme, Hollywood, Hong Kong seria mais um t�pico filme pol�tico se o tom fosse o da vitimiza��o ou do protesto. Mas o que surpreende no filme � assumir-se perdido no meio do nevoeiro. Sim, porque de fato o edif�cio Hollywood � tremendamente sedutor, assim como Tong Tong. O que restaria � vida dos tr�s a�ougueiros a n�o ser perder-se pela misteriosa mo�a da cidade? O in�cio do filme � devastador. Os tr�s a�ougueiros s�o absurdamente gordos e carregam porcos para um pequeno matadouro. A est�tica do filme � apresentada: a cena n�o chega a ser tipicamente realista (por exemplo, como em O Sangue das Bestas), tendo um tom de com�dia e de caricaturiza��o, mas a clara associa��o entre os a�ougueiros e os porcos provocam uma sinistra ironia. � uma com�dia (ou uma farsa) com tons surrealistas (a fuga da porca, chamada de �m�e�, a procura por uma m�o decepada), num filme altamente irregular, mas o que encanta � justamente isso: sua despreocupa��o em fazer um cinema agrad�vel ou mesmo recomend�vel. Como est�vamos falando, o que torna Hollywood, Hong Kong um filme digno de nota � sua ambig�idade, que claramente se associa a um projeto de cinema. Como resistir aos encantos do cinema de Hollywood? Quase como numa cena de um Abril Despeda�ado, os tr�s a�ougueiros se divertem num balan�o quando conseguem afinal transar com Tong Tong. A m�sica e a fotografia correta refor�am o tom l�rico e cool a diversas cenas com um tom c�mico-po�tico. Assim, n�o se torna um filme de protesto, mas coloca a rela��o dif�cil entre o ser e o poder ser. Fruit Chan n�o nega Hollywood, n�o nega que inevitavelmente teremos que viver � sombra de um cinema que vive da extors�o de nossas fantasias, mas sua prova de amor � que, ao mesmo tempo em que tem sua m�o decepada, ele n�o abandona aquele lugar l�gubre. N�o abandona meio sem saber por qu�, talvez por n�o ter outra esperan�a, talvez por n�o poder estar naquele quarto de hotel de Hollywood. Os pobres moradores vivem da esperan�a do reencontro, mas sabendo ser imposs�vel o acerto de contas, porque afinal a rela��o se baseia na sedu��o. T�o perto e t�o longe, o gigantesco Hollywood abalroa o cotidiano dos tr�s a�ougueiros. Seduzidos por seu encanto irresist�vel, seu destino � o mutilamento, a fal�ncia, a desesperan�a. � n�o mais aceitar nem mais a presen�a da antiga mulher, agora que se conhece uma �mulher de verdade�, � matar a possibilidade do antigo equil�brio. Mas de uma forma atipicamente rom�ntica, o que resta para a ing�nua Tong Tong? Manipulada por seus chefes pelo sonho de imigrar para a �Cidade dos Sonhos�, a prostituta realiza seu sonho caminhando solit�ria e distante. N�o deixa de ser at� comovente: de alguma forma Fruit Chan ainda acredita que viver nos escombros de Hong Kong seja um gesto de resist�ncia. Marcelo Ikeda (22/09/2002) |