
|
Cinema � tro�o muito complicado. Quando fui assistir pela primeira vez a um filme de Aki Kaurismaki, esperava, vindo de um diretor internacionalmente reconhecido da Finl�ndia, pa�s com pouca tradi��o no cinema mundial, um filme tipicamente europeu, ainda pela �tima recep��o do filme no �ltimo Festival de Veneza. Esperava um filme elegante, refinado. Esperava outra coisa. O
que vi foi um filme inusitado, desconcertante em sua simplicidade. Um filme
completamente americano no formato, completamente alinhado com uma narrativa cl�ssica.
Um filme com nenhum vigor em termos de ritmo, enquadramento, no corte, mas ainda
assim um filme muito particular em seus pr�prios termos. Como assim? * * * Um
Homem sem Passado � um filme muito sutil. Retrato ambivalente, levemente
amargo, paradoxalmente retroativo. O filme � um charme em termos de
mise-en-scene. O cen�rio � propositadamente fake, tudo claramente para ser
notado que foi feito em est�dio, com uma luz muito esquisita. Algumas vezes
entretanto � quase bizonhamente realista. Em
O Homem Sem Passado, a fria mulher que trabalha num �rg�o de caridade � pura
como uma santa, o policial explorador fala manso como um poeta, o cachorro
Canibal � uma cadela que n�o d� um �nico latido, o assaltante do banco est�
preocupado com seus funcion�rios, o marido da ex-esposa do protagonista o chama
para a briga como se fosse para um jogo de cartas. E por outro lado, o d�cil
protagonista que procura sua identidade descobre que � um homem cruel, jogador
obsessivo, agressivo, odiado por quase todos. Por tr�s de uma realidade
sombria, Kaurismaki faz sua f�bula p�s-moderna com uma leveza puramente nost�lgica. * * * E � exatamente isso que o torna um filme interessantemente paradoxal. Enquanto um bando de filmes contempor�neos se interrogam sobre o papel da mem�ria, sobre os dist�rbios psicol�gicos de um personagem contados em primeira pessoa, Kaurismaki se volta para o presente, ele quer ignorar o passado. O passado n�o tem import�ncia em rela��o ao presente, em rela��o a uma possibilidade de construir um futuro. Os del�rios do protagonista de Kaurismaki s� interessam na medida em que eles se relacionam com o outro, com os rumos das outras pessoas. Este � o cinema de Kaurismaki! Profundamente
ing�nuo e melanc�lico, com um final com um trem que at� parece um filme de
Ozu, Um Homem Sem Passado, um dos menores filmes desse festival, �
desconcertante, em seu tom sincero, em como vai se revelando pouco a pouco para
o espectador, em como consegue, negando o tempo todo um poss�vel processo de
autoria e constru��o, transmitir de forma simples e singela uma possibilidade
ing�nua e improv�vel. Na forma como se cozinha uma carne, em como se come um
sushi numa viagem de trem, em como se atende a um telefone, Kaurismaki nos
revela o que � fazer cinema. Em como � simples e como � confuso. * * * Num �nico dia, num festival confuso como o Festival do Rio, temos a chance de ver Uma Floresta Sem Nome e Um Homem Sem Passado, dois filmes menores que reviram nossa cabe�a por motivos completamente diferentes. Ficamos com a certeza de que � imposs�vel ser coerentes sem sermos paradoxais. At� porque de fato cinema � um tro�o muito complicado.
Marcelo Ikeda (30/09/2002) |