O HOMEM SEM PASSADO

 

Cinema � tro�o muito complicado. Quando fui assistir pela primeira vez a um filme de Aki Kaurismaki, esperava, vindo de um diretor internacionalmente reconhecido da Finl�ndia, pa�s com pouca tradi��o no cinema mundial, um filme tipicamente europeu, ainda pela �tima recep��o do filme no �ltimo Festival de Veneza. Esperava um filme elegante, refinado. Esperava outra coisa.

O que vi foi um filme inusitado, desconcertante em sua simplicidade. Um filme completamente americano no formato, completamente alinhado com uma narrativa cl�ssica. Um filme com nenhum vigor em termos de ritmo, enquadramento, no corte, mas ainda assim um filme muito particular em seus pr�prios termos. Como assim?

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Um Homem sem Passado � um filme muito sutil. Retrato ambivalente, levemente amargo, paradoxalmente retroativo. O filme � um charme em termos de mise-en-scene. O cen�rio � propositadamente fake, tudo claramente para ser notado que foi feito em est�dio, com uma luz muito esquisita. Algumas vezes entretanto � quase bizonhamente realista.

Em O Homem Sem Passado, a fria mulher que trabalha num �rg�o de caridade � pura como uma santa, o policial explorador fala manso como um poeta, o cachorro Canibal � uma cadela que n�o d� um �nico latido, o assaltante do banco est� preocupado com seus funcion�rios, o marido da ex-esposa do protagonista o chama para a briga como se fosse para um jogo de cartas. E por outro lado, o d�cil protagonista que procura sua identidade descobre que � um homem cruel, jogador obsessivo, agressivo, odiado por quase todos. Por tr�s de uma realidade sombria, Kaurismaki faz sua f�bula p�s-moderna com uma leveza puramente nost�lgica.

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E � exatamente isso que o torna um filme interessantemente paradoxal. Enquanto um bando de filmes contempor�neos se interrogam sobre o papel da mem�ria, sobre os dist�rbios psicol�gicos de um personagem contados em primeira pessoa, Kaurismaki se volta para o presente, ele quer ignorar o passado. O passado n�o tem import�ncia em rela��o ao presente, em rela��o a uma possibilidade de construir um futuro. Os del�rios do protagonista de Kaurismaki s� interessam na medida em que eles se relacionam com o outro, com os rumos das outras pessoas. Este � o cinema de Kaurismaki!

Profundamente ing�nuo e melanc�lico, com um final com um trem que at� parece um filme de Ozu, Um Homem Sem Passado, um dos menores filmes desse festival, � desconcertante, em seu tom sincero, em como vai se revelando pouco a pouco para o espectador, em como consegue, negando o tempo todo um poss�vel processo de autoria e constru��o, transmitir de forma simples e singela uma possibilidade ing�nua e improv�vel. Na forma como se cozinha uma carne, em como se come um sushi numa viagem de trem, em como se atende a um telefone, Kaurismaki nos revela o que � fazer cinema. Em como � simples e como � confuso.

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Num �nico dia, num festival confuso como o Festival do Rio, temos a chance de ver Uma Floresta Sem Nome e Um Homem Sem Passado, dois filmes menores que reviram nossa cabe�a por motivos completamente diferentes. Ficamos com a certeza de que � imposs�vel ser coerentes sem sermos paradoxais. At� porque de fato cinema � um tro�o muito complicado.

 

Marcelo Ikeda

(30/09/2002)

 

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