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A Liberdade � uma doen�a
Para absorver um pouco do significado de Uma Floresta sem Nome, � preciso antes desnudar-se. Acima de tudo, este desnudamento parte do cr�tico, que tem o dever ingrato de de certa forma avaliar o filme segundo alguns par�metros preestabelecidos. Mas o novo filme de Aoyama Shinji desnorteia o espectador porque sua ess�ncia constitui em transfigurar uma possibilidade de um percurso inequ�voco, quando surpreender-se e descobrir-se apenas faz parte de um encontro com um destino que de fato n�o existe. Isto � fundamental quando pensamos no fato de o pr�prio Aoyama Shinji ter sido um cr�tico antes de se aventurar pela realiza��o. Nesse sentido, Uma Floresta sem nome, filme assumidamente menor, mas o oitavo filme desse realizador de menos de 40 anos, parece ser seu filme mais maduro (embora conhe�amos apenas outros dois filmes do realizador). Ao contr�rio das tr�s horas e quarenta minutos do premiado Eureka, belo filme por sinal, nos menos de setenta e cinco minutos de Uma Floresta sem nome, Aoyama parece menos preocupado em sustentar em seu filme um equil�brio palat�vel para as plat�ias europ�ias. Uma Floresta sem nome come�a como um policial mafioso, se transforma num filme quase religioso, passa pela met�fora pol�tica, e ao final se revela amargamente ir�nico. A manipula��o dos rumos da narrativa (chegamos at� em pensar em Hitchcock quando seu suposto filme de gangster se revela um tratado existencial, ou ent�o no antol�gico Cinzas que Queimam, de Nicholas Ray) agora assume um outro significado. Antes de jogo amb�guo com as possibilidades da narrativa, se torna um imperativo �tico: a fant�stica humanidade de Mike Yokohama se desnuda a partir de seu desejo por uma liberdade esguia e doentia. Aoyama n�o receia tornar os caminhos menos simpl�rios para o espectador, j� que um de seus objetivos principais � exatamente problematizar uma id�ia de percurso. O bater de palmas dos quase rob�ticos pacientes nunca � em un�ssono. Mas ainda assim, Uma Floresta sem nome desenvolve temas de filmes anteriores de Aoyama: a natureza (a floresta) como ref�gio imposs�vel de uma civiliza��o doentia, a proximidade da morte como agente transformador, a necessidade da auto-descoberta como motiva��o para prosseguir. Em geral, os filmes de Aoyama circulam em torno de um questionamento sobre a inevitabilidade da auto-destrui��o. Desta forma, retoma o tema de sempre do cinema oriental: como � poss�vel prosseguir adiante sem o mesmo caminho de ontem? Mas se o faz com uma ineg�vel rever�ncia, nunca deixa de ser instigante e profundamente antenado, � sua maneira, com o cinema contempor�neo. * * * O que nos encanta � a maturidade de Aoyama em transformar cada pequeno detalhe de seu filme em um ponto de refer�ncia: � a brilhante luz no refeit�rio momentos antes de a mestra lhe revelar um pequeno desafio, � o olhar para o vazio quando uma das mulheres n�o deseja que ele a toque, � o plano de um p�ssaro de brinquedo quando Yokohama retorna para a cl�nica vazia, � a grua que ligeiramente escapa para a esquerda quando Yokohama est� diante da floresta pela primeira vez. S�o formid�veis especialmente por conter a no��o exata de que todos esses elementos precisam ser desconstru�dos com a sa�da necess�ria de Yokohama da cl�nica. Afinal, a liberdade � uma doen�a. Se a doce mestra nos parece ao final do filme como l�der de uma seita fan�tica, n�o se pode negar que este filme de Aoyama dialoga com uma ingenuidade infantil. � a terr�vel seq��ncia na cozinha, em que a mulher � quase for�ada a se suicidar, postergada com um simples plano da ambul�ncia deixando o local, acompanhada das palmas macamb�zias dos demais internos. Mas ao final Aoyama termina de forma amarga, negando at� mesmo o fechamento de um poss�vel c�rculo, corroborando a no��o de destino (o cumprimento de sua miss�o devolvendo a filha a seu pai milion�rio) mas ao mesmo subvertendo-a. O riso nervoso na cadeira da mestra torna seu filme ainda menos palat�vel, quase cruel. O encanto deste novo filme de Aoyama � como os pequenos detalhes refletem os lapsos irrevers�veis entre a sociedade e o indiv�duo. Marcelo Ikeda (21/09/2002) |