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A Festa de
Margarette � uma ilha. Entre um cinema brasileiro que se questiona sobre a
necessidade de integra��o ao mercado e sua viabilidade como cinema autoral, A
Festa de Margarette n�o deixa de ser exatamente isso, embora seja a sua nega��o.
Processo criativo controlado por praticamente duas pessoas � o diretor,
roteirista, fot�grafo e montador Renato Falc�o e o ator e autor da trilha
sonora Hique Gomez � , filmado em super-16mm (depois ampliado para 35mm para
sua exibi��o em cinemas), realizado em preto-e-branco e sem di�logos, A Festa
de Margarette pareceria um t�pico produto de um cinema de autor herm�tico e
distante do p�blico. Mas ao contr�rio � um filme com uma l�gica (pelo menos
a princ�pio) do cinema cl�ssico, uma com�dia que busca um di�logo com um
cinema mudo, mais especificamente o de Charles Chaplin. Os
primeiros quinze minutos do filme nos encantam por sua poesia, seu tom de
intimidade durante uma refei��o familiar (quase como num filme italiano), seu
tom on�rico, suas gags sonoras (o tilintar de garfos e facas em copos s�o
combinados com a trilha sonora do filme). Mas pouco a pouco A Festa de
Margarette se revela assustadoramente realista: o desemprego, os menores de rua
que s�o brutalmente assassinados pelos policiais, a quest�o do dinheiro, os
pastores das Igrejas Evang�licas, etc. O enredo
do filme � claramente fant�stico: a obten��o do dinheiro n�o � veross�mil,
a fuga dos pastores tem saltos incompreens�veis de continuidade, etc. Sendo o
filme t�o compacto e t�o bem resolvido visualmente, ficamos com uma impress�o
negativa desses saltos que comprometem o item mais b�sico da narrativa cl�ssica:
a unidade, a transpar�ncia, a coer�ncia. Ficamos com a sensa��o do erro. Mas o que
� o erro? Por que cada filme brasileiro precisa tanto acertar? Acerto ou erro
em rela��o a qu�? *
* * Ap�s o t�rmino
da sess�o, nos deparamos com o tipo da quest�o, praticamente esquecida do
atual cinema brasileiro, que s� um filme t�o simples e sincero como A Festa de
Margarette poderia nos relembrar. O que � cinema? O que significa realizar um
primeiro filme? Qual � o papel de um filme? Como se pode fazer cinema no Brasil
sem que o Brasil esteja na tela? Por que cada filme brasileiro precisa ser um
ato solit�rio de resist�ncia? A Festa de
Margarette �, por mais paradoxal que pare�a, um dos filmes mais honestos sobre
a atual fase do cinema brasileiro dos �ltimos anos. � um filme que aborda o
cerne do que possa ser hoje o cinema brasileiro. Por tr�s de seu tom
saudosista, ing�nuo e retroativo, pulsa um cinema de uma liberdade
absolutamente imposs�vel de ser contida; surge uma vis�o da indiferen�a pela
corre��o da linguagem e da primazia t�cnica (sem deixar de ser um filme
antenado com as condi��es de exibi��o de hoje), quando se v� que
inevitavelmente o cinema brasileiro � fruto de uma sociedade subdesenvolvida;
surge uma ang�stia t�pica da nova gera��o de cineastas do �o que fazer�,
de n�o saber a quem pedir ajuda, e do cinema como um natural e �nico ref�gio. Poesia e
realidade, liberdade e ang�stia, se mesclam de tal forma que fazem de A Festa
de Margarette um misto de Charles Chaplin com Ozualdo Candeias. * * * A fuga, o
sonho imposs�vel, o passeio pela cidade do protagonista de A Festa de
Margarette � um grito de liberdade mas ao mesmo tempo profundamente melanc�lica.
� o eterno tema de �tornar-se rei por um dia� e suas repercuss�es
milenares (a invers�o que at� hoje � o cerne por exemplo das festas de
carnaval); � a necessidade da loucura e da fantasia contra um cen�rio de
pervers�o e destrui��o; � a generosidade absolutamente redentora do t�tulo
do filme (a festa � de Margarette...) O final de A Festa de Margarette � um memor�vel invent�rio dos conflitos do cinema brasileiro. Num plano-seq��ncia que come�a nos olhos abertos (apenas por in�rcia) do personagem principal, por vezes cobertos pelas sombras das palmas das crian�as presentes na festa de Margarette, a c�mera registra em terr�vel paradoxo toda a trajet�ria do filme. Se antes todo o mundo lhe parecia insens�vel e apenas o personagem era o portador da alegria, agora � o contr�rio: todas as pessoas sorriem diante da festa, enquanto a figura do protagonista se debru�a miseravelmente ante � mesa. Se em todo o filme a velocidade � acelerada, agora o efeito � retardado, quase em c�mera lenta. A� surge o poder do campo-contracampo. Um corte seco revela sua esposa, a Margarette, recebendo os aplausos e os parab�ns por mais um ano de vida. Lentamente, atrav�s do trabalho com o campo-contracampo, a esposa come�a a perceber que seu marido est� profundamente infeliz. Todos � volta deles sorriem e participam da festa. Margarette est� a alguns passos do marido e entre eles h� um bando de convidados. Como se aproximar no meio da festa? Como ajudar o marido? Ao mesmo tempo, no olhar de Margarette para o marido (ele n�o percebe que est� sendo observado), h� a mais profunda proximidade entre ambos. H� uma brutal consci�ncia de como toda a festa � rid�cula, mas ao mesmo tempo de como ela � necess�ria. O que fazer com a festa? O que fazer sem ela? Como ajudar o marido? O que fazer ap�s a festa? Assim termina o primeiro filme de Rafael Falc�o, obra desigual e marginal, um dos mais simples e honestos invent�rios do que seja realizar um filme no Brasil de hoje. Marcelo Ikeda (26/09/2002) |