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Vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim em 2002, o urgente Domingo Sangrento coloca uma s�rie de quest�es quanto ao papel do document�rio no cinema de hoje. O s�bio Victor Erice j� dizia que n�o se pode fazer cinema contempor�neo sem tratar da rela��o �ntima entre o document�rio e a fic��o. No ano passado, os cin�filos cariocas tivemos a oportunidade de aprender o que � cinema direto vendo os admir�veis filmes de Frederick Wiseman. Temos observado tamb�m o cada vez mais importante papel do cinema document�rio no cinema brasileiro de hoje. Mas o que significa tudo isso? Domingo
Sangrento � exemplar do cinema direto, mas nada tem de documental ou de cinema
direto, porque o filme todo � um processo ficcional. Em todo o filme temos a
impress�o de estar em um campo de batalha, com uma c�mera trepidante que
confere ao filme um sentido de urg�ncia impressionante, somado a uma dire��o
formid�vel, que consegue conferir a toda uma multid�o de figurantes uma
coordena��o memor�vel, que transforma a pr�pria realiza��o do filme em uma
experi�ncia quase militar (em termos da estrat�gia de sua organiza��o). O
filme � essencialmente seu trabalho de c�mera, que d� um vigor inquestion�vel
ao filme, e que acerta ao evitar o tom did�tico e acad�mico de um poss�vel
document�rio sobre o terr�vel massacre na Irlanda em 1972. Mas
se Domingo Sangrento nos impressiona quanto aos seus recursos de cinematografia,
na sua urg�ncia e vigor est�tico na realiza��o do document�rio, o que h�
por tr�s desse recurso t�cnico? Qual � a vis�o sobre o acontecimento que se
quer passar? Sobre o que se quer refletir, de que forma? E � a� que
descobrimos que Domingo Sangrento � um filme completamente vazio, um filme em
branco. Manipulando o espectador, Domingo Sangrento � completamente did�tico
como um filme americano, com seus her�is e vil�es. � um filme feito por
encomenda para tornar os moradores locais pobres m�rtires, e nunca questionar
outra possibilidade, e que pretende massacrar o espectador, impression�-lo para
que acredite nisso. E da� se reflete sobre o que � um document�rio, e Domingo
Sangrento certamente n�o � um. Tornando todos os membros da pol�cia terr�veis
assassinos ou lun�ticos ou a sangue frio, investindo na identifica��o com o l�der
do movimento, o parlamentar, tornando-se completamente implaus�vel quando
pensamos num prov�vel ponto de vista, Domingo Sangrento opta por uma est�tica
documental para esconder suas reais inten��es, mascarando-se para o
espectador, manipulando suas inten��es atr�s de um suposto car�ter
documental. Ainda que cheio de boas inten��es e um filme vigoroso, Domingo Sangrento nos permite refletir e muito sobre o uso do document�rio no cinema de hoje, mas n�o como um Victor Erice havia pensado, mas ao mostrar como a est�tica documental muitas vezes, ao inv�s de aproximar o filme de uma �realidade�, ao contr�rio, acentua seu processo de manipula��o. Muitas vezes at� mais que um filme ficcional. Marcelo Ikeda (28/09/2002) |