BARAN

 

Esse � o terceiro filme de Majid Majidi com forte repercuss�o internacional, ap�s o deslumbrante Filhos do Para�so e A Cor do Para�so. Majidi j� tornou-se conhecido por tratar de temas t�picos do cinema iraniano (quest�es sociais, atores n�o-profissionais, tem�ticas simples, o uso de crian�as) mas com um apelo formal e recursos melodram�ticos t�picos de um cinema mais americano. Nesse Baran n�o � diferente, mas tamb�m n�o deixa de comprovar a coer�ncia e o aperfei�oamento de linguagem desse diretor iraniano que parece pretender fazer carreira no cinema americano.

Afeg�os trabalham de forma clandestina na constru��o de um pr�dio no Ir�. O gerente da obra os contrata pelos custos menores, mas precisa escond�-los quando chegam fiscais da pol�cia. Um jovem iraniano faz apenas servi�os leves, como fazer compras e servir as refei��es, sem pegar no pesado. Mas por causa de seus deslizes, acaba substitu�do por um estranho menino afeg�o, que come�ou a trabalhar no local substituindo seu pai doente. O jovem iraniano amaldi�oa o afeg�o que roubou seu posto. Mas essa rela��o se transforma em amor quando ele descobre que na verdade o menino afeg�o � uma menina.

Passado quase todo em uma constru��o, mostrando o cotidiano dos trabalhadores, numa est�tica realista e objetiva t�pica dos filmes iranianos, Baran surpreende pela maturidade do trabalho de Majidi com o campo-contracampo. Em boa parte do tempo, o jovem iraniano observa o trabalho do menino afeg�o. Com um jogo de olhares n�o correspondidos trabalhado de forma simples e competente, Majidi, com pouqu�ssimos di�logos constr�i de forma l�dica a mudan�a da rela��o entre os dois personagens, com um trabalho de decupagem formid�vel.

Por outro lado, Baran utiliza solu��es apelativas, e resolve mal o filme. � a �s�ndrome Syamalan�. Ap�s o sugestivo final de Filhos do Para�so, Majidi parece ter a necessidade que seus filmes terminem da mesma forma: com uma ambig�idade entre se o problema se resolver� ou n�o, mas no final afirmando que sim, culminando com um plano detalhe que encerra o filme e s� ent�o resolve de vez a quest�o. Assim o foi em A Cor do Para�so, onde o equil�brio � at� satisfat�rio. Nesse Baran no entanto, o filme perde a m�o, postergando al�m do vi�vel a resolu��o do conflito, rompendo com o tom singelo e econ�mico de todo o filme.

Ainda assim, Baran � um trabalho elogi�vel de constru��o narrativa, muito bem decupado e repleto de sil�ncios e de troca de olhares. Ap�s este filme, Majidi comprova que tem o total controle de linguagem de constru��o de um filme narrativo. Ficamos torcendo para que ele consiga fazer seu filme em Hollywood. Seria no m�nimo interessante v�-lo dirigindo um filme falado em ingl�s.

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Marcelo Ikeda

(07/10/2002)

 

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