ZONA DE SEGURANÇA

À primeira vista, Zona de Segurança é um filme semelhante a Os Demônios Batem à Porta. Ambos falam do papel da amizade que surge em situações inesperadas, do absurdo da guerra, da relativização da situação de perigo e do papel do inimigo, da natureza de ser prisioneiro ou adversário. Neste, um conflito entre japoneses e chineses; naquele, entre norte e sul-coreanos. Em ambos, a polaridade, que a princípio parece perder o sentido, como num típico filme renoiresco, acaba se tornando irreconciliável no fim. Da mesma forma, em ambos os filmes o que apontaria para uma aproximação entre os dois pólos inimigos no fundo acaba por revelar apenas a impossibilidade da conciliação, a impotência do indivíduo frente às convenções de seu tempo.

No entanto, são dois filmes absolutamente diferentes, porque Zona de Segurança opta sempre pelo caminho mais convencional, aventurando-se menos pelo sentimento de mundo de seus personagens para embarcar numa forma de cinema didático, convencional e formalista. Começando com um flashback ardiloso e estilizado, Zona de Segurança revela-se quase como um thriller americano, repleto dos lugares-comuns dos filmes de investigação, desde o detetive sabichão (no caso, uma detetive, ou melhor, uma antropóloga) até o sistema corrupto que impede a verdadeira solução do caso. Ao contrário do estilo sóbrio do filme chinês, este é um filme que busca a superfície, as avaliações prematuras, a acomodação, o roteiro enxuto e a técnica polidamente correta mas insossa.

O lugar-comum de Zona de Segurança é pregar a crítica politicamente correta ao absurdo da guerra, recheando-a de um invólucro de thriller americano. Os quatro personagens - dois norte-coreanos e dois sul-coreanos - nutrem uma amizade verdadeira, apesar de estarem em lados opostos da iminente guerra. Um deles salva a vida do outro quando preso numa mina. A partir daí, a amizade se intensifica. No entanto, essa amizade se revela impossível devido a uma estrutura de valores, um sistema social, uma cadeia ideológica externa a eles, que eles não conseguem interferir e que impede os valores do indivíduo, a liberdade e o companheirismo. Ao contrário de Os Demônios, que problematiza o tempo todo essa mesma construção, tornando os personagens mais ambíguos, Zona prefere uma visão linear, uma simples crítica do absurdo da guerra, sem nunca convencer o espectador de sua situação-limite. Sem dúvida, é bem filmado, possui um widesreen invejável, e tem alguns bons momentos, sob o tema da amizade inesperada. Mas nada que um Renoir não tenha feito em A Grande Ilusão de forma muito mais cinematográfica e estimulante. Apesar de seu tema curioso e prolífico, Zona de Segurança revela-se acadêmico, fácil em suas escolhas óbvias e vazias, pseudo-angustiante e pseudo-estiloso. Covarde e levemente hipócrita como o típico cinema contemporâneo.

Marcelo Ikeda

03/10/2001.

 

Hosted by www.Geocities.ws

1