MILLENIUM MAMBO |
O taiwan�s Hou Hsiao-Hsien � um dos mais respeitados nomes do dito "circuito de arte" da atualidade. Os cin�filos cariocas, no entanto, s� tivemos a oportunidade de conferir um de seus filmes, Flores de Shangai, exibido no ano passado no Festival. O cinema oriental � de fato uma grande lacuna nas telas brasileiras que aos poucos o Festival do Rio, pelo menos nos �ltimos dois anos, vem tentando reduzir. Ainda assim, nomes consagrados como Edward Yang (A Brighter Summer Day), Tsui Hark e Stanley Kwan (Actress) s�o pouqu�ssimos conhecidos por estas bandas. Em Flores de Shangai, a maestria de Hou em criar atmosferas intimistas, no incr�vel uso da luz e do plano seq��ncia, na sutileza e na delicadeza de sua mise-en-scene em contraste com a exposi��o feroz e cruel do submundo de seus personagens, de fato surpreendia. A princ�pio, Millenium Mambo pode surpreender por ser um filme contempor�neo, enquanto a atmosfera de Flores de Shangai era do Jap�o medieval. Agora, o cen�rio � uma boite, um nightclub. Mas no fundo, se repararmos bem, o universo dos dois filmes � bem semelhante. Antes, eram mais apropriados a casa de prostitui��o e o �pio. Agora, evidentemente, a boite e as drogas mais pesadas. Em comum, os dois filmes falam de desmoronamentos. No primeiro, as impl�citas artimanhas entre os clientes e as prostitutas do lugar. Em Millenium Mambo, de forma semelhante, o objetivo � de decompor, evidenciar as rela��es de poder entre os frequentadores de um certo submundo, sua tentativa desesperada de encontrar consolo, as regras impl�citas do local e a quebra de certos c�digos de conduta. Ao contr�rio do cinema moderninho que fala de sexo e drogas entre jovens, o objetivo de Hou n�o � nem ser moralista, mostrando como a sociedade condena a op��o de indiv�duos que n�o se adaptam ao sistema nem, ao contr�rio, ser amoralista, glorificando um mundo de liberdade, sensa��es m�ltiplas e divers�o. Nesse sentido, da mesma forma que em Flores de Shangai, os personagens parecem condenados �s regras expl�citas de seu mundinho, mas pelas op��es pr�prias que eles v�m a tomar. Em seguida, o desprezo, a humilha��o, a id�ia de impossibilidade. Seja nas repeti��es, seja nas elipses temporais, a impossibilidade do contato entre os dois jovens esbarra num id�ia de solid�o, que permeia todo o filme. Entre a m�sica alta e a atmosfera multifacetada da boite, h� o apartamento de Hao-Hao, os planos seq��ncia. Existe, claro, a id�ia do foco, da aus�ncia da profundidade de campo, que � trabalhada em todo filme, mas por outro lado, uma incapacidade de sair do superficial, de resgatar uma ess�ncia. Se em Flores de Shangai, a suavidade da luz de vela sugeria que os personagens pareciam estar sendo constantemente observados em seus costumes e rea��es, em Millenium Mambo os personagens est�o terrivelmente s�s, nunca s�o observados, mas ainda assim s�o parte integrante de um certo sistema, respeitam certos c�digos e estabelecem rela��es impl�citas. E isso se reflete seja atrav�s do traficante de drogas ou do pern�stico dono da boite. Se � poss�vel argumentar por um lado que Hou acerta por descrever sem moralismos e sem os cacoetes do cinema moderninho a sociedade jovem de hoje, e o seu gosto pela imagem superficial (isto � pela banaliza��o da imagem) que decorre disso, por outro lado Hou parece se encantar com as tenta��es da imagem e de seu pr�prio discurso. A c�mera lenta, o excesso de voz over, o jogo com o foco, a exalta��o com as cores em v�rias vezes esbarram em um esteticismo vazio que incomoda. � medida que o filme caminha e especialmente no final, o filme cai em um romantismo tolo e ing�nuo. Seria preciso analisar os outros filmes do autor para n�o tomar conclus�es precipitadas, mas ao que parece Millenium Mambo corre os riscos de seu prec�rio equil�brio: � preciso que Hou n�o se deixe enfeiti�ar por seus pr�prio feiti�os visuais para continuar filmando. Marcelo Ikeda 01/10/2001. |