Os esconderijos da intimidade sob a anarquia da violência: os filmes de Takashi Miike

O Festival do Rio BR 2001 possibilitou aos cinéfilos cariocas travarem um primeiro contato com um realizador extremamente particular. Dois de seus filmes mais conhecidos foram exibidos no Rio: A Cidade das Almas Perdidas (Hyoryu Gai, 2000) e Audition/ O Teste Decisivo (Odishon, 1999).

Miike começou sua trajetória no cinema como assistente de direção de Shohei Imamura em Chuva Negra, e logo partiu para dirigir filmes de baixíssimo orçamento, lançados no Japão quase que diretamente no mercado de vídeo, muitas vezes nem completando uma semana nos cinemas. Com isso, já adquiriu uma trajetória de uma dezena de longa-metragens. Em geral, num único ano, realiza três ou quatro filmes. O reconhecimento no Japão veio com Shinjuku Triad Society, de 1995, quando foi indicado a um prêmio de melhor direção pela Associação de Produtores Cinematográficos do Japão. Mas apenas com a recepção de Audition no Festival de Rotterdam em 2000 é que o nome de Takeshi Miike passou a ser conhecido internacionalmente.

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O cinema de Miike é repleto de aparências e superfícies, que apenas com um exercício cuidadoso e atento do olhar revelam suas recônditas intenções. A princípio, seus filmes parecem constituir o estereótipo do cinema moderninho, como aquele vindo de Taiwan: são filmes violentos, graficamente estilizados, com um humor cool aparentemente irresponsável, que quebram a linearidade da narrativa clássica, lembrando um jogo visual das histórias em quadrinhos (manga). No entanto, o cinema de Miike é muito mais que isso, porque se baseia em um equilíbrio sinuoso. Ao mesmo tempo em que vinga a superfície e o instante, o violento e instintivo cinema de Miike é profundamente íntimo, humano e apaixonante.

A Cidade das Almas Perdidas parece um filme tão inconseqüente quanto um Comando para Matar. Audition começa como um despretensioso romance de um executivo em busca de uma esposa e se revela uma trágica e terrível história de horror. As explosões e a trilha sonora tornam A Cidade um filme quase ensurdecedor. Audition começa como um típico filme feminino e se torna quase tão masculino quanto um filme de gângster. O mal-estar é evidente; o público ri por falta de alternativa. Porque é a partir do deslocamento e do jogo ambíguo com as regras do cinema narrativo que Miike busca sua visão sobre o mundo que rodeia seus personagens, que são sim mais importantes que qualquer pirueta visual.

Com isso, o cinema de Miike extrai o que o cinema americano dos anos cinqüenta tem de melhor: tem a corporalidade dos melhores filmes de Aldrich, é o cinema anárquico e rebelde de Sam Fuller, mas também se assume violento como única válvula de escape contra a solidão, como nos mais pessoais filmes de Nick Ray, como Cinzas que Queimam. É um cinema tão absolutamente pessoal que só pode ser sentido nas entrelinhas, que joga com as convenções de um cinema comercialóide apenas para transplantá-las, decodificá-las segundo suas próprias leis.

Mas se Miike é moderníssimo, ele consegue o inexeqüível, ele realiza a síntese de um conjunto de tendências mais diversas. Se Miike é Fuller, é Aldrich, é Nick Ray, ele é também Griffith (pela habilidade da narrativa convergente, pelo uso da gramática), é um manipulador das emoções humanas e das reviravoltas narrativas como um Hitchcock, tem uma atração pelo sórdido que se esconde no interior das pessoas como um Fritz Lang, mas é também Godard, é Meliès, é Buster Keaton, é Bergman e Chaplin.

A Cidade das Almas Perdidas é um filme japonês protagonizado por um brasileiro e uma chinesa. Fala sobre a inevitabilidade da globalização e ao mesmo tempo sua impossibilidade. Tóquio se torna uma cidade sombria, um centro de destruição, mas é também fonte de busca e de descoberta para seus estrangeiros. Se o cinema de Miike aceita os códigos de uma linguagem de cinema que já se tornou universal, como uma tendência inevitável, seus filmes subvertem essas noções pela força de seu cinema sem restrições, pelo amor e luta de seus pobres personagens.

Audition é o ensaio metodológico de Miike, em que sua visão de cinema resulta límpida, quase explícita. O teste de elenco para escolha de uma atriz para um filme torna-se na verdade mero recurso protocolar na verdadeira opção do executivo: escolher sua futura esposa. Ele a conhece apenas por sua ficha, então como é possível lidar com as expectativas? Como é possível que as expectativas em torno de um filme superem os fatos de nossa própria vida, e ao mesmo tempo como pode nossa ordinária vida concorrer com o onisciente mundo da tela bidimensional?

Nesses filmes, numa instância quase paradoxal, os personagens sempre são profundamente humanos, sempre lutam bravamente contra uma vida de paralisia e inércia. Mesmo o mafioso da Yakuza em A Cidade ou a mulher psicótica de Audition possuem uma doçura tranqüila e encantadora. Os dois protagonistas de ambos os filmes estão condenados por amar demais, e nunca de menos: é o amor proibido do brasileiro pela chinesa, namorada do chefão da Yakuza, ou ainda Asami, a psicopata de Audition que quer que o executivo ame a ela e a mais ninguém. Ainda que o mundo caia à sua volta, ou que todas as evidências apontem o contrário, os personagens querem lutar contra um destino que parece inevitável para todos nós, menos para eles. São nesses breves momentos que a ternura de Miike por seus personagens se revela: num casamento improvisado ao som de carnaval, num jogo de tênis de mesa, no olhar do executivo para a namorada do filho.

Mas se esses personagens partem por uma desesperada e apaixonada busca, isso não implica que eles consigam vencer a batalha. Os finais de Miike são ambíguos. Em A Cidade, quando tudo parece resolvido, a impossibilidade do contato, a separação ocorre à beira do mar. O único momento de verdadeiro contato entre o executivo e a mulher de Audition é quando ambos estão mutilados, e seus olhares se cruzam. Se o prazer de Miike pelo processo cinematográfico, pelas reviravoltas narrativas e o amor por seus personagens são mais que evidentes, isso não impede que seus filmes sejam sempre um retrato da ausência, fruto de um deslocamento tão íntimo que atinge até mesmo o espectador. É também um cinema da dor e dos recomeços, como um típico cinema oriental que simplesmente busca um lugar no mundo.

Marcelo Ikeda

10/10/2001.

 

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