M A Y A

Apesar de bastante numeroso (supera em t�tulos produzidos o pr�prio cinema americano), o cinema indiano � pouqu�ssimo conhecido por aqui. S� conhecemos Mira Nair, mas trata-se de um cinema indiano para exporta��o, uma esp�cie de "Central do Brasil" de l�. Isto porque o cinema indiano que conhecemos � o que � exibido nos Festivais, direcionado para seu gosto espec�fico. Em Maya tamb�m n�o � diferente. Os cr�ditos iniciais do filme s�o em ingl�s, exclusivamente, o que j� mostra o p�blico do filme. � o tipo de filme que agrada os estrangeiros: o tipo de den�ncia social politicamente correta, que mostra qu�o atrasadas ainda s�o certas regi�es do pa�s em rela��o aos pa�ses europeus. Cheio de externas das ruas dos vilarejos indianos, de comidas t�picas, de rituais, da vestimenta espec�fica, � um filme "pitoresco", "ex�tico", que atrai as "pessoas que gostam de viajar", que julgam que podem conhecer o interior da �ndia, os costumes milenares daquele povo vendo um desses filmes.

Assim sendo, assumindo-se assim, Maya agradou o p�blico que esgotou os ingressos do reduzido Espa�o Unibanco 3 numa ensolarada tarde de domingo, na sess�o "matinal", �s 13:30. O que pode nos surpreender em Maya, mas nem tanto, dado que sabemos da efic�cia da "ind�stria cinematogr�fica indiana", � como o filme � bem filmado. Isto �, com bem filmado quero dizer, respeitando totalmente todas as regras do chamado cinema bem filmado. Fotografia primorosa, dire��o de arte eficiente, trilha sonora na hora certa, gruas bem posicionadas, montagem precisa, atores bem ensaiados e escalados, em especial os atores-mirins, realmente de se destacar. Isto �, um t�pico cinema internacional.

A princ�pio, parece um falso filme iraniano. Conta a hist�ria de um garoto e sua priminha (T�m cerca de seus sete anos) e suas travessuras. � um filme terno, com toda a bagagem da inoc�ncia do mundo infantil. Mas j� a�, e esse � o m�rito do filme, h� algo de estranho. Os meninos tentam fugir, a garota se sente culpada por ter mijado no jardim, a m�e (ao contr�rio do que pensamos num filme indiano) lidera completamente a fam�lia, enquanto o pai � um moleir�o. H� algo que n�o se realiza, uma express�o reprimida, quase claustrof�bica quando se concentra nos interiores da casa.

H� dois elementos bastante interessantes. O primeiro � a figura do empregado da casa. Ele � tratado quase como um escravo, um animal, quase inconsciente de seus atos. Vive para o trabalho, e nada mais. N�o pode ter vida social, lazer, amigos, ou mesmo descanso. O diretor explora isso quando vemos a mulher constantemente chamando seu nome por toda a casa e nas situa��es mais diferentes. Uma vez, quando a mulher lhe d� algum dinheiro para pagar uma conta, o empregado vai ao bar e fica de porre, gastando todo o dinheiro. � censurado, mas ele pouco se importa, porque � o que resta a ele fazer, � o �nico momento em que tem a oportunidade de um tipo de "lazer". Ele se embriaga com a cacha�a mais barata e depois s� espera conformado seu castigo. Uma coisa cruel.

O segundo elemento � ainda mais interessante, o que j� evidencia o desequil�brio da parte bonitinha do filme. A casa � tomada por lagartixas, que n�o conseguem ser expulsas. Num momento crucial do filme, a garotinha Maya acorda � noite para ir ao banheiro. H� uma lagartixa no vaso, e com medo, ela mija no jardim. No dia seguinte, percebe-se que na verdade fora sua primeira menstrua��o. O final retoma quase como expl�cita a presen�a da lagartixa, quando a mulher retira uma de dentro do carro. � um pren�ncio, quase um s�mbolo do mal, do sinistro que acometeu aquela fam�lia.

Mas o curioso de Maya, que chegou a chocar algumas das velhinhas que compunham o p�blico, � o seu mote, que vem a transformar completamente o filme. A fam�lia prepara um ritual religioso para aben�oar a menina que agora se tornou mulher. Nesse ponto, o filme come�a a ficar um pouco mais angustiante, porque se focaliza no drama do garoto desobediente, que se inquieta por algo que n�o conhecemos e passa a ser rebelde, e sofrer os castigos por isso. Mas o filme bobinho se transforma: o ritual � na verdade simples abuso sexual da pobre crian�a que chora indefesa. O religioso abusa da crian�a, e o filme tem uma revela��o impressionante. A partir disso, a garota agora � mulher. A menina possui uma atua��o impressionante: sua express�o corporal muda, assume momentaneamente um jeito s�brio, torna-se outra. Triste mas conformada.

Assim, com um did�tico texto em ingl�s que informa que a pr�tica, apesar de proibida, ainda acontece em algumas regi�es do interior do pa�s, termina Maya, cumprindo o que prop�s: ser ao mesmo tempo um cart�o-postal do "pitoresco e ex�tico" povo indiano e ser uma "contundente" e politicamente correta cr�tica social, passando nos festivais e sendo visto.

Marcelo Ikeda

02/10/2001.

 

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