MÁ COMPANHIA |
Má Companhia, premiado no último Festival de Roterdã, poderia ser um filme de high school americano. No entanto, poucas vezes o filme busca o humor. Ao contrário, busca-se um cinema do sentimento. Da mesma forma, há o conjunto de jovens lidando com as dificuldades da busca pela maturidade, mas o filme não se concentra nas relações sociais de uma turma de alunos, como num painel. São apenas três alunos, que nutrem uma maior amizade. Entre eles, o filme explora especialmente uma relação de cumplicidade. Nesse caso, poderia se tornar uma espécie de Conta Comigo. A diferença, claro, além do papel do professor, é que em Má Companhia, não há uma perspectiva explícita de revisitação nostálgica da infância. Com isso, o filme evita alguns clichês de uma visão paternalista sobre seu universo. Três jovens alunos possuem um professor bastante rígido. O personagem do professor é um tanto ambíguo: às vezes age em excesso, mas algumas vezes achamos que contribuem para a formação das crianças. A missão do professor é tornar seus alunos humanos, dividindo-os em categorias. Suas aulas são uma espécie de aula de moral. Daí o filme questiona a possiblidade dessa mesma instrução. O professor algumas vezes parece tão ou mais "desumano" que seus alunos. Seu personagem é sempre visto do ponto de vista dos alunos: ele não possui dúvidas, apenas certezas, nem problemas, é profundamente equilibrado. Os três alunos são castigados porque confessaram ter furtado doces numa loja. Eles devem fazer uma redação contendo uma auto-crítica. O filme se concentra mais nos dramas de um dos meninos (Sadatomo). O professor o elogia por ele ter se humilhado na redação, e acaba repetindo-o na frente dos demais alunos da turma. Má Companhia é frouxo na direção, fruto dessa ambiguidade. Por vezes, é austero, econômico nas palavras, enfatizando as dificuldades do menino. Por outras, busca um diálogo com o passado (provavelmente com o próprio passado do diretor), um "acerto de contas", buscando situações de fácil apelo, como a limitação da liberdade individual por um sistema educacional, etc. Quando se equilibra bem, possui bons momentos. Mas em geral é irregular e contraditório. A decupagem é em geral elegante, optando pelo plano seqüência, com alguns carrinhos engenhosos e gruas de bom gosto. Os atores infantis estão muito bem. A melhor cena ocorre quando os pais dos meninos são chamados à escola para receberem a notícia de que seus filhos são ladrõezinhos. Ao contrário dos outros pais, o de Sadatomo não bate no filho, ele é incapaz de reagir, não lhe diz praticamente nada. A incomunicabilidade entre pai e filho é expressa de forma sutil e eficiente. Em outra cena, o pai não deixa que o filho mexa em sua máquina fotográfica. "Há determinada coisas que não queremos deixar que os outros toquem". "Para mim, não", o garoto responde. Outra cena marcante ocorre quando o professor dá punições para dois alunos, um carrega baldes pesados; o outro deve correr até cair. Já em outra, Sadatomo se recusa ser elevado de ralé para uma melhor categoria. No final, o filme se perde, quando quase inexplicavelmente um dos meninos cai/pula de uma ponte. Sofre uma brutal descontinuidade dramática que prejudica o filme. Marcelo Ikeda 05/10/2001. |