A LUA NO DESERTO

Ap�s o extremamente bem-sucedido Eureka, o novo filme de Shinji Aoyama retoma os temas de seu filme anterior. A Lua no Deserto tamb�m fala de separa��es e de aus�ncias, e da impossibilidade de se reverter � origem, a grande dificuldade de aceitar o fato e continuar vivendo - o grande tema central de seus filmes.

Nagai � um empres�rio bem-sucedido, mas quando sua empresa de inform�tica est� � beira da fal�ncia, ele passa a questionar seu projeto de vida. Os primeiros quarenta minutos do filme s�o uma longa apresenta��o � vidinha de Nagai, seu projeto e limites, e a derrocada desse ideal. Sua ang�stia aumenta quando sua esposa resolve abandon�-lo, levando consigo a filhinha do casal. Nagai passa a nutrir um �dio pela esposa, ainda pensando em termos da competi��o em seu ambiente de trabalho: ningu�m pode abandon�-lo.

Nesse ponto, surge Keechie, um garoto de programa, inserindo um novo ponto nessa polaridade. Aoyama resolve tratar de dois personagens semelhantes, ainda que possuam universos distintos e classes sociais opostas. Keechie � pobre, meio hippie, quase um bandido, ao contr�rio do rico executivo. Keechie tamb�m est� submerso em uma ang�stia pessoal. Ele odeia o pai, mas se sente impotente para mat�-lo. Passa ent�o a ter um destino cruel. Se por um lado � pago pelas pessoas para fazer coisas que elas n�o tem coragem para realizar elas mesmas, Keechie vive com o dilema da incapacidade de realizar ele mesmo o que ele queria fazer. O resultado disso � que ele provoca nas pessoas um sentimento de revolta contra seus pr�prios limites. Ele quer inspirar nas pessoas a coragem que ele pr�prio n�o possui. Por um lado, Keechie sabe que sua covardia � sadia, porque no fundo n�o quer matar seu pai, mas n�o consegue apagar o desejo da vingan�a. Torna-se ent�o um andarilho sem rumo, pagando por seus pecados impl�citos, peregrinando em torno de sua miss�o in�til.

Nagai contrata Keechie para transar com sua esposa para depois dizer a ele quem era melhor na cama. Keechie o faz, e a esposa de Nagai resolve contrat�-lo para matar seu marido. Keechie � o mensageiro do destino, cumpre sua miss�o resignado, mesmo que seja para tentar se esquivar de sua covardia.

A Lua no Deserto tem o mesmo ritmo contemplativo que Eureka, o mesmo olhar para as sutilezas do interior do ser humano, suas contradi��es, mas acaba caindo na dificuldade de realizar um segundo filme, ou o filme "ap�s". Com A Lua no Deserto, o m�ximo que Aoyama consegue � mostrar que Eureka deve ser de fato seu grande filme. Por um lado, tenta-se manter na linha deste, com sua �nfase humanista, que algumas vezes cai no sentimentalismo �bvio; por outro, tenta mudar sua vis�o, acrescentando um personagem marginal e violento. Possui cenas bonitas, de destaque, como quando um amigo de Keechie mata seu pai, ou ainda quando Keechie reencontra Nagai para contar que cumpriu sua miss�o, ou as cenas com as galinhas na casa de campo onde a esposa de Nagai e sua filha se refugiam (� nesse ponto em que o filme mais se parece estilisticamente com Eureka). Mas o filme se perde em sua parte final: as rea��es dos personagens s�o equivocadas, os di�logos quase cretinos, todo o filme se resolve mal. Aoyama sofre da dificuldade da s�ntese: os melhores momentos em Eureka e A Lua no Deserto s�o exatamente quando o diretor se esquece do tempo e da narrativa, e resolve pintar com climas e percal�os a caminhada de seus personagens.

Marcelo Ikeda

08/10/2001.

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