A HORA DA PARTIDA |
Talvez seja desnecess�rio dizer que Tsai Ming-Liang � provavelmente o maior cineasta da atualidade. Na d�cada de noventa, Tsai conquistou importantes pr�mios em festivais internacionais com obras extraordin�rias como Vive l�amour, O rio e O buraco. Seu cinema nasce de um curioso paradoxo: seus filmes s�o extremamente contempor�neos e extremamente antigos. E isso se reflete n�o s� no conte�do mas especialmente na forma. A Hora da Partida espelha o dilema � perfei��o. E ainda insere uma nova quest�o, t�o cara a um cineasta do porte de Tsai. Como n�o se repetir? Em seu novo filme, Tsai retoma uma s�rie de temas e planos de seus filmes anteriores. De fato, A Hora da Partida � uma mistura de seus tr�s filmes mais importantes. � o mote de uma doen�a misteriosa que nunca se cura, a �nfase na comida enfatizando um processo de animaliza��o, o homossexualismo n�o como op��o pr�pria mas por falta de melhor alternativa (O rio), � a quest�o do estrangeiro e o filme-painel, o close up no desesperado choro da mulher sentada na pra�a (Vive l�amour), � a austeridade da c�mera parada, o plano inicial e a tend�ncia para o humor (O buraco). Ainda assim, o que � impressionante em A Hora da Partida � que Tsai utiliza planos e temas semelhantes para dar continuidade ao seu projeto de cinema, e se ele se repete, ele o faz para inesperadamente ganhar um novo rumo e uma nova conota��o. A Hora da Partida se repete apenas para seguir adiante, apenas porque a repeti��o de fato faz parte de sua pr�pria estrat�gia de cinema. N�o h� d�vidas que o projeto de Tsai � absolutamente contempor�neo. � o questionamento da causalidade da narrativa cl�ssica, � a tend�ncia em evitar os psicologismos, � a tend�ncia do humor para enfatizar a solid�o dos personagens, � a quest�o homossexual. No entanto, o que estava j� presente em O buraco assume em A Hora da Partida uma posi��o extrema. Neste filme, a c�mera n�o se move uma �nica vez. Todos os planos s�o extremamente longos. E ainda assim � o tipo de filme que nunca poderia ter sido feito em digital. Cada plano do filme s� cede lugar a outro quando se esgota (com isso lembra at� o recente No quarto da Vanda). Nesse sentido, cada plano do filme � um pequeno filme, uma obra � parte. Cada um dos planos possui uma informa��o espec�fica, uma fun��o caracter�stica, e s� deve ceder seu lugar a outro quando esse sentido puder ser passado em sua totalidade. (Claro que totalidade num certo sentido, porque a montagem sempre produz um novo efeito para o plano anterior). N�o h� um �nico campo-contracampo. A fragmenta��o espa�o-temporal da narrativa cl�ssica � ent�o absorvida de outra forma. Se o filme � composto de pequenos flashes, existe claramente uma narrativa, que segue de forma cont�nua. A Hora da Partida basicamente acompanha tr�s hist�rias. Uma mulher, ap�s a morte do marido, acredita que pode se comunicar espiritualmente com ele. O filho dela n�o esquece uma cliente que acabara de viajar para a Fran�a, e passa a ajustar todos os rel�gios da cidade com o hor�rio franc�s. A cliente viaja para a Fran�a, mas sente saudades de seu pa�s de origem. O que � fant�stico no filme � que todos os personagens sofrem da mais profunda solid�o, porque suas rela��es s�o baseadas na aus�ncia, ou melhor, numa dist�ncia afetiva. Eles passam ent�o a projetar seus sentimentos no outro, e abstraem sua pr�pria vida. A mulher pensa no marido, morto. O filho pensa na cliente, na Fran�a. Ela, por sua vez, pensa em Taiwan. � em cima desse tema b�sico que Tsai coloca na tela talvez de forma mais expl�cita sua vis�o de cinema. Agora, talvez ele tenha come�ado a desenvolver uma maior compaix�o por seus pat�ticos personagens, como j� havia demonstrado no l�rico desfecho de O buraco, ao contr�rio dos austeros Vive l�amour e O rio. Da� vem o maravilhoso lirismo do menino tentando acertar os rel�gios com o hor�rio de Paris. Essa parece sua �nica alternativa de romper a solid�o. Da mesma forma, sua m�e tenta malabarismos mil para chamar o esp�rito de seu pai de volta. Tsai vai construindo sutis paralelismos em torno desses personagens. Na cena mais expl�cita, a montagem claramente participa para ligar as tr�s hist�rias. Falam do uso do sexo como tentativa frustrada de romper a solid�o (como a cena incestuosa de O rio): a m�e com o suposto esp�rito do marido, o menino com uma prostituta, a mulher na Fran�a com outra mulher que conhecera por l�. Fala-se erradamente que Tsai � o novo Bresson. A austeridade de sua est�tica, a aus�ncia das firulas de c�mera s�o usadas num outro sentido. Tsai n�o � religioso como Bresson, seus filmes nunca mostram a caminhada de seus personagens em dire��o ao espiritual. Em A Hora da Partida, ele at� zomba disso, quando a m�e parece completamente neur�tica quando persegue o esp�rito do falecido marido. Tsai � sim um disc�pulo de Antonioni, mas aqui dialoga tamb�m muito com os primeiros filmes de Jarmusch. Especialmente na sua vis�o do estrangeiro. A mulher que vai para Paris viaja para buscar novas alternativas, mas descobre que tem a vontade de fazer as mesmas coisas de sempre: sua viagem � uma tentativa de fuga frustrada, porque resulta numa saudade, num t�dio, e na consci�ncia da aus�ncia de possibilidades. No entanto, de uma certa perspectiva, A Hora da Partida � o mais religioso de seus filmes, e isso deve ser olhado com aten��o. Isso est� claro se compararmos o primeiro plano de O buraco e A Hora da Partida. Nos dois filmes, h� um longo plano de um homem sentado num sof�. O garoto de O buraco est� totalmente inerte, como se tentasse se recuperar de uma ressaca. Sua corporalidade, seu vazio s�o irrecus�veis. O velho de A Hora da Partida, dessa vez, se levanta e vai regar uma planta, l� em segundo plano. Ele se prepara para sua morte. O espetacular final de A Hora da Partida � memor�vel por seu otimismo. N�o � o fundo do po�o como o fim de O rio, muito menos o choro agonizante, o desespero tr�gico, o "o que fazer?" do fim de vive l�amour. Mas tamb�m n�o tem o tom de farsa, o exagero cinematogr�fico de O buraco. � apenas no fim que temos a consci�ncia de que o filme n�o acompanha a trajet�ria de tr�s personagens, mas sim quatro. O �ltimo plano retoma a figura do marido morto no primeiro plano. De uma certa forma, ele � um alter-ego do pr�prio cineasta, uma representa��o do pr�prio tema do tempo que aben�oa o caminho in�til dos tr�s personagens. Dessa vez, parece que Tsai consola a menina que chora ao fim de Vive l�amour. Como num velho filme de Ophuls, l� est� a roda gigante que permeia o rumo c�clico de seus tolos e admir�veis personagens. Num plano de conota��es claramente espirituais, a miss�o do velho parece estar cumprida: vagarosamente o velho se afasta e abandona o espa�o da diegese, e com ele o filme se acaba. Marcelo Ikeda 12/10/2001. |