A DIALÉTICA NO AMOR |
Talvez o maior problema de A Dialética no amor tenha sido o horário em que foi programado. É um filme lento, com muitos diálogos, ideal para ser o primeiro do dia, e não o último, numa sessão no apertado Estação 2, às 21:30 de uma sexta-feira, com um ar condicionado que nevava. A sessão começou lotada, mas no final, apenas metade da platéia sobreviveu. Uma pequena injustiça com um filme que tem alguns pontos interessantes sobre o relaqcionamento humano. A princípio, o filme parece uma comédia romântica hollywoodiana. Ou melhor, um romance, porque praticamente não há comédia em A Dialética no Amor. Mas também é bem japonês. O filme conta a história de um mulher de classe média baixa, que trabalha numa firma. Ela logo atrai a atenção de um alto executivo dessa firma, que acabara de se separar da esposa e está em busca de alguém para acabar com a solidão, seu vazio. Eles se conhecem, se gostam, mas ele quer mudar a vida da mulher: quer que ela se mude para um apartamento menos apertado, quer lhe dar roupas caras, ir a restaurantes caros. Ele nem pergunta a ela se quer novas roupas, etc, obviamente toma isso como dado, porque todas as mulheres querem se vestir melhor. Ela se sente desconfortável e reclama. Mas ele simplesmente diz que ela vai se acostumar, porque todos querem algo melhor, todos querem progredir. Mas ela não. Ela está totalmente satisfeita com sua vidinha, quer continuar como está. Não há porque mudar. Ele não entende isso. Ela fica cheia, desiste dele. Ele entra numa crise, porque nunca pensou que uma mulher "pobre" desistiria dele. Ao contrário, ele pensava que ela deveria dar graças a Deus (ou a Buda) por alguém rico como ele se interessar por ela. Mas ela o descarta, completamente. E ele, mimado, não sabe o que é ser descartado. Aí sim ele se sente inútil, rejeitado, vazio. Ela conhece um cara que tem um trabalho ridículo, ele separa caixas segundo o tamanho. Eles se gostam, saem, ficam juntos. Mas a crise começa. Ele quer dar a ela uma vida melhor. Ele fica incomodado, insatisfeito por não dar a ela o que ele acha que ela merece. Tudo se complica quando os dois homens se conhecem. O executivo fica ainda mais perplexo: como ela pôde trocá-lo por um perdedor e ainda por cima mais feio? Como ele, o homem perfeito, pôde ser esnobado dessa forma? O carregador também fica pressionado. Ele tem medo de não ser o que ela quer, de não corresponder às expectativas dela. Ele também não entende porque ela não fica com ele. No fundo, ele quer mudar de vida, só que não consegue: é um típico perdedor. Ele tem inveja do homem rico, que o despreza. Com isso, o filme trabalha com um tema interessante, de forma que nunca poderia ser tratado num filme do cinemão. A questão do filme é como a pressão por sucesso, as imposições do "Japanese way of life" cercam a liberdade do indivíduo. É a questão de ter que progredir, de achar que o que se tem não é suficiente, da pressão pelo trabalho, pelo sucesso, pelo reconhecimento. E de como ela sofre tanto com um cara mais rico e outro mais pobre. O cara rico acha que ela quer ser como ele. O cara pobre acha que ela gostaria que ele tivesse mais dinheiro. Os dois portanto são iguais. Um ponto que não é muito bem tratado é que ela é no fundo egoísta. Ela tem sua vidinha completamente equilibrada, tudo é perfeito. Ora, então, qual é a necessidade de alguém? Ela, apesar de ser apresentada no filme como a mais equilibrada, é a mais solitária. Ela quer no fundo que os homens vivam como ela quer, não está disposta a fazer concessões, mas quer que os outros as façam. Parece que ela não precisa ser ajudada; ela só quer ajudar seus pobrezinhos homens a entender. Se os dois homens são iguais, a preferência dela pelo carregador é puramente egoísta: ela se sente mais confortável com ele porque ele não a domina. O filme é centrado nos diálogos. Nesse aspecto, se parece quase com um filme de Rohmer. Desde o início, no entanto, o filme se assume assim, então é válido. É uma proposta. Ainda que esbarre nas limitações de um projeto que muitas vezes é cansativo (o filme é bem longo) e que esbarra no fútil, o filme tem uma decupagem interessante, bastante diferente de um filme do cinemão. Há alguns plano-seqüência, alguns carrinhos interessantes. Há outras horas que o filme cai no teatral, para não dizer no televisivo, especialmente no que diz respeito às reações dos personagens em diálogos (um fica de costas para o outro, depois caminha para uma janela, vira-se, etc.). O trabalho de iluminação em geral é deficiente, abusa do teatral. O final é estranho, especialmente no cinema japonês, conhecido por sua contenção, sua economia. Há uma grande verborragia, do carregador discutindo com a mulher os problemas de seu relacionamento. A cena é longa e se passa toda no mesmo ambiente, só em diálogos. No entanto, convence, é sincera, dramática, os diálogos passam credibilidade. É bastante difícil expor uma situação-limite de um relacionamento sem parecer caricatural. Essas lavagens de roupa suja são terríveis e o diretor tem coragem em mostrar as acusações e de continuar e continuar dentro de seu modelo. Um final mais adequado seria se a mulher ficasse sozinha. Se fosse um filme de Douglas Sirk certamente ela ficaria louca, ou o rapaz se tornaria empregado da firma do outro mais rico. Se fosse Sirk, certamente a mulher seria mais questionada, mais ambígua, em sua tentativa hipócrita de encontrar alguém, enquanto no fundo ela quer ficar sozinha. Manda, um diretor estreante, preferiu um final bonitinho, preferiu acreditar na possibilidade da classe pobre ficar unida, resolvendo seus problemas juntos. Parece um final de Borzage. Os dois com as mãos entrelaçadas pode até ser bonito, enquanto o sol nasce. Nada mais americano. Mas é um recurso que nos deixa em dúvidas da honestidade do diretor, da ética de sua filosofia. Acho que ele não deve ter visto os filmes de Sirk. Marcelo Ikeda 29/09/2001. |