OS DEMÔNIOS BATEM À PORTA

Na maior parte das vezes, o cinema contemporâneo parece ter perdido sua grande vocação: a capacidade de contar uma história. O cinema do mainstream há muito tempo optou pela linha mais fácil, seguindo à risca sua fórmula de plot points e recursos baratos para surpreender o espectador. Torna-se um cinema previsível, sem alma, que perde a admiração e a consciência do trabalho com os elementos de linguagem, ainda que dentro de sua proposta de um cinema invisível para o espectador. O dito "circuito de arte" muitas vezes adota uma opção tão extrema que acaba se tornando a mesma estratégia do mainstream. São filmes feitos para romper com as regras daquele cinema, mas acabam por incorrer em um excesso no trabalho com a câmera e com a quebra da narrativa ou da diegese que muitas vezes se tornam exercícios fúteis e maneiristas que banalizam a natureza da imagem e da representação. Ou então, como o estereótipo do atual cinema francês, olham com desdém a posição do espectador, definindo-se como superior a ele, fazendo pose de cinema inteligente mas que se revela pretensioso e distante.

Por isso, quando assistimos a Os Demônios Batem à Porta, podemos pensar que se trata de um filme dos anos cinqüenta, ainda mais por sua fotografia em preto e branco. O que não quer dizer que é um filme antigo, retrógrado, ultrapassado. Ao contrário, porque utiliza o que há de melhor nesse cinema, sem nunca deixar de ser extremamente moderno. É o corte do grande plano geral para o plano detalhe, ou vice-versa, é o uso da steadicam, é a autonomia do movimento de câmera em relação à ação principal, em alguns planos. Mas o que Os Demônios nunca perdem de vista é um projeto de cinema que em primeiro, em primeiríssimo lugar, propõe um diálogo direto e inequívoco com o espectador, cuja base de sustentação está em sua vocação pela narrativa clássica, seu desejo de contar uma grande, pequena, bela e terrível história.

Por isso, Jiang Wen revela-se de uma maturidade surpreendente, quando não precisa mostrar ao espectador que sabe filmar, porque está claro que o sabe. Ou melhor, porque sua proposta não é mostrar ao espectador que sabe filmar ou mostrar que sabe fazer cinema inteligente, mas simplesmente fazê-lo. Ou ainda, simplesmente contar uma história. Daí seu destino solitário: inevitavelmente deve cair em esquecimento. Não é o tipo de filme que inspire resenhas dos doutores das universidades norte-americanas sobre o cinema pós-moderno, tratados sobre a corporalidade, ou ainda dos estudos culturais e das tradicionais queixas feministas. É simplesmente cinema.

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Ainda, Os Demônios Batem à Porta estão firmemente calcados numa proposta de um cinema humanista. Para Jiang Wen, ainda é o indivíduo quem conta, seus dilemas, seus limites, sua capacidade de transformação. O corte preciso, a maestria dos planos gerais, o gosto pelos prazeres da narrativa clássica, a questão humana mas nunca sentimentalista, lembram de fato os filmes do japonês Kurosawa.

No meio da noite, um soldado misterioso abandona dois sacos aos cuidados de um simples camponês, ameaçando toda a cidade caso não os proteja adequadamente. No interior estão dois japoneses, prisioneiros de guerra. Inicia-se uma amizade entre os camponeses (que não querem matar os prisioneiros) e os prisioneiros (que não querem ser mortos pelos camponeses). Mas o soldado nunca retorna para buscá-los. O que fazer então com os prisioneiros?

A princípio, Os Demônios parecem o eterno mote de A Grande Ilusão sobre a guerra. Os camponeses chineses e os soldados japoneses possuem muito mais em comum que os soldados chineses e os camponeses chineses. A guerra na remota aldeiazinha no interior da China parece distante. As diferenças de nacionalidade então parecem não fazer sentido. A amizade é possível, e ela se estabelece após alguns percalços naturais. Após se sentirem seguros que o soldado não retornaria, os camponeses querem se livrar dos prisioneiros, e estes querem fugir. Decidem, então, atravessar a fronteira e entregar os dois prisioneiros japoneses para seu exército de origem. Agradecido, o general oferece uma grande festa em território chinês. Japoneses e chineses estão reunidos, bebendo e cantando juntos. Na mesa central, o general e o líder da aldeiazinha sentam-se lado a lado. O clima é de descontração.

Mesmo se acabasse assim, Os Demônios ainda seriam um grande filme. Nos atuais tempos em que voltou-se a falar sobre guerra, seria um final bonito, com fé na humanidade, na possibilidade da redução das diferenças e do acordo pacífico.

Mas é nesse ponto que se revela o verdadeiro projeto de Jiang Wen. O filme então questiona exatamente esse humanismo convencional, e transforma radicalmente sua visão. Ao invés da síntese, do acordo, da tentativa de paz, Wen conclui pela impossibilidade de resolução do conflito, pela condenação implícita, pelo destino cruel. A guerra torna-se sim mera conotação política, mas sem nunca perder a dimensão do homem. Jiang Wen faz cinema ambicioso, porque não tem medo de tornar sempre mais ambíguas as relações entre prisioneiros e algozes, entre japoneses e chineses. Seu filme é corajoso por não optar pelo caminho mais fácil, pela crítica convencional, pelo absurdo da guerra contra a liberdade individual do Homem. Sua proposta é mais sutil, mais questionadora, menos condescendente. O camponês que salvara a vida de seu prisioneiro acaba sendo decapitado exatamente por ele. Conclusão severa, mas necessária em tempos que o humanismo fácil virou lugar-comum.

Marcelo Ikeda

07/10/2001.

 

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