A CIDADE DAS ALMAS PERDIDAS |
O p�blico presente ao Espa�o Unibanco na tarde de s�bado j� deveria estar prevenido que os filmes de Takashi Miike n�o foram feitos para atender a todos os gostos. Ainda assim, o choque foi grande, e muitas pessoas reagiram com viol�ncia ao projeto de Miike. Sentiram-se quase ofendidas com um cinema an�rquico, violento e pouqu�ssimo elegante. � primeira vista, seu cinema � o perfil do cinema de a��o moderno: quase uma par�dia ao cinema de a��o hollywoodiano, com um punhado de refer�ncias, metalinguagem (com o programa de televis�o), personagens que assumidamente se aproximam da caricatura, um certo humor c�nico, muita viol�ncia estilizada, � moda de um cinema de John Woo. Os primeiros quinze minutos surpreendem pela eloq��ncia visual. Um conjunto de explos�es, fugas, sangue, helic�pteros e companhia. Mas Miike � o tipo de diretor que n�o tem receio de arriscar, de buscar os caminhos menos f�ceis, mais espinhosos, e de dialogar o tempo todo com o que pode ser reciclado, entre o que � de bom ou mau gosto, de se situar na corda bamba, de brincar com o poder de fazer cinema. Porque um olhar mais atento mostra que sob a superf�cie de seu projeto essencialmente moderninho, c�ustico e explosivo, nas sublinhas da anarquia visual, est� um cineasta que busca seu pr�prio caminho em meio � fragmenta��o, que busca um olhar no meio das refer�ncias, no meio do cinema estilizado, entre o clich�, o p� e o sangue. E por mais paradoxal que possa parecer, a linha condutora de A Cidade das Almas Perdidas � a poesia, � o prazer de viver a vida em busca de uma liberdade que parece perdida, sem sentido. Entre o desejo an�rquico e moleque de destrui��o, surge um cinema do �ntimo, do contato desesperado, de um senso de realismo que n�o pode ser escondido. E surge seu desejo incontrol�vel de viver e de se arriscar, sem culpas e sem se questionar se vale ou n�o � pena. Surge a poesia. � uma m�e procurando a filha no meio da cidade turva, um casamento de confetes ao som de uma marchinha carnavalesca, um grupo de ciclistas iluminados que interrompe um poss�vel assassinato, o jogo de t�nis de mesa que resolve o conflito final. � a impossibilidade da morte, mesmo quando se pula de um helic�ptero sem p�ra-quedas. Os personagens caricaturais se tornam humanos, porque sempre lutam contra seu destino. Da� que A Cidade das Almas Perdidas torna-se um filme profundamente oriental. Por tr�s do distanciamento e do cinema gr�fico, reina uma ternura que envolve os pobres personagens de A Cidade. A Cidade dos Estrangeiros, como o t�tulo original nos informa, fala muito mais sobre o senso de deslocamento, o estranhamento, enfim a tentativa dos personagens se convencerem de que s�o humanos quando todos ao seu redor querem lhe dizer do contr�rio. Come�ando com John Woo, passando ao mesmo tempo pelo western introspectivo de um The Searchers e a anarquia raivosa de um Sam Fuller e terminando como um bom melodrama mexicano, A Cidade das Almas Perdidas � um filme que mostra por tr�s de sua apar�ncia moderninha, apressada e inconseq�ente, a exaustiva tarefa de ser e de brincar de ser, entre o cinema e a vida. Marcelo Ikeda 01/10/2001. |