A CASA DA GOIABEIRA

Assistir a A Casa da Goiabeira foi a oportunidade de conferir um pouco mais do cinema vietnamita, pouqu�ssimo exibido por aqui. Embora seja o s�timo filme do diretor Dang Nhat Minh, sua filmografia, pelo menos por aqui, � totalmente desconhecida. O filme chega aqui por ter sido exibido em festivais como Locarno e Rotterdam, embora sem grande proje��o.

De fato, n�o � um filme digno de nota. Esbarra nos limites de um cinema humanista previs�vel, que encara seus personagens como v�timas, que busca apenas a simpatia e a pena do espectador. Enfim, um cinema voltado para emo��es as mais b�sicas e imediatas. Tudo deve ser explicitado � exaust�o e identificado, rotulado para o espectador. Os personagens s�o esquem�ticos, quase caricaturais: o pai da menina, homem de neg�cios mais velho, � autorit�rio; o maluquinho (Hoa, o personagem principal) � bondoso, livre; sua irm�, preocupada, atenciosa; a garota dona da casa � jovem, entende mais a todos, mas � reprimida pelo pai autorit�rio.

O filme me parece ter algo comum aos filmes do �nico vietnamita conhecido por aqui: Tran Anh Hung (O Cheiro do Papaia verde, As Luzes de Um Ver�o, ...). Tem a inoc�ncia, o contato com a natureza como transposi��o do cotidiano, o papel da fruta, a opress�o do mundo ao redor, a plasticidade da fotografia.

O filme conta a hist�ria de um rapaz com algum desequil�brio mental, mas ing�nuo e inofensivo, que trabalha como posador para uma escola de escultores. Ele mora com a irm�. Ele nutre um grande desejo de voltar � casa onde foi criado. Sabemos (por um flashback extremamente did�tico, pontuado por voz over, etc) que o rapaz ficou assim quando caiu de uma goiabeira do quintal de casa quando tinha 13 anos. Ele volta � casa, mas acaba preso pela pol�cia por invadir propriedade privada. Solto, ele retorna, mas enfim � compreendido, e muito bem recebido pela atual dona da casa, uma menina que faz faculdade, filha de pais ricos e ausentes. Os dois se tornam amigos. Mas quando o pai dela retorna, repreende a decis�o da menina e manda internar o rapaz. Ela adquire um tal trauma que piora, agora nem � capaz de reconhecer as pessoas. O filme acaba com dois planos sugestivos. Ele parado como uma est�tua, numa pose na escola de escultores. Em seguida, h� um plano geral da cidade em obras.

O filme � razoavelmente bem filmado, h� enquadramentos interessantes, a fotografia � bem cuidada, as loca��es s�o muito bem escolhidas. A montagem e a trilha sonora especialmente s�o acad�micas. No entanto, h� alguns pontos de interesse no filme.

O filme � nost�lgico, fala de uma inoc�ncia perdida com a modernidade (a irm� uma hora indaga "qual o problema de se viver no passado?"), e nisso aborda o passado do Vietn� e a reconstru��o da cidade (como em Banhos, por exemplo). Mostram-se ambulantes na rua sendo reprimidos por policiais, etc. H� tamb�m, e isso � interessante no filme, um certo painel hist�rico do pa�s. As for�as militares que tiraram a casa do pai advogado, e a conseq�ente perda de status social, etc. No entanto, ao contr�rio de Banhos, que v� essa mudan�a do moderno para o antigo como inevit�vel, parte do ciclo da vida, A Casa da Goiabeira � retr�grada, antiga: acha que os novos tempos s�o desumanizadores e o antigo era melhor. Da� os flashbacks s�o mais coloridos; o pai das crian�as era �timo, etc.

Mas talvez o de mais curioso no filme seja a vis�o do artista, do papel criador. Talvez seja a �nica ambiguidade do filme (embora muito t�mida). Vemos o cliente que pouco entende de arte, interessado na est�tua porque � sensual. Vemos as pessoas que posam interessadas por arte mas tudo por tr�s � um com�rcio, elas n�o tem possibilidade alguma de progredir. (Hoa posa por d�cadas, como afirma). Uma menina mais bonitinha no entanto tem a chance de um futuro diferente, se souber dan�ar conforme a m�sica. Nesses r�pidos relances, o diretor parece ter a consci�ncia de que tudo � mercado, de que o drama daquelas pessoas humildes de que o filme trata deve ser embrulhado como mercadoria, para atrair o interesse de quem compra o filme. Isto �, n�s, que achamos que um simples plano geral das ruas do Vietn� com os ambulantes fugindo � capaz de nos mostrar o que se passa por l�.

Marcelo Ikeda

29/09/2001.

 

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