O TESTE DECISIVO (AUDITION)

O Festival do Rio deste ano proporcionou ao cin�filo a oportunidade de conferir dois t�tulos obtusos, que provocaram enormes discuss�es e diverg�ncias entre o p�blico presente. Se de um lado A Cidade das Almas Perdidas j� chocara com sua est�tica violenta, sedent�ria e agressiva, agora era a vez de um t�tulo anterior, mas que foi exibido apenas depois de A Cidade.

Se em A Cidade a estrat�gia de Miike era t�o sutil que mal podia ser percebida, em Audition seu projeto de cinema se revela definitivamente, de forma t�o crua e expl�cita que praticamente cega o espectador. Se A Cidade parece nos encantar mais porque a est�tica do choque j� est� definitivamente cristalizada no filme, de modo que n�o existe mais a necessidade expl�cita de expor o choque diretamente para o espectador (e da� reside sua sutileza), Audition, por ser anterior, pode ser considerado um ensaio metodol�gico, um filme-s�ntese, que parece ter sido feito com a urg�ncia de mostrar �s claras do que consiste seu projeto de cinema. E dizemos isso tendo visto apenas estes dois filmes, desconhecendo uma s�rie de t�tulos do diretor, que filma tr�s, quatro filmes por ano, v�rios deles lan�ados diretamente em v�deo. Filmes como Shinjuku Triad Society, que o revelou no pr�prio Jap�o e Dead or Alive, seu primeiro filme lan�ado nos Estados Unidos. Com Audition, veio o reconhecimento, ap�s o impacto no Festival de Rotterdam.

Primeiro, a urg�ncia de uma est�tica. � muito f�cil rotular os filmes de Miike de p�s-modernos, porque s�o retratos esquiz�ides de uma sociedade em decomposi��o, feitos de retalhos que abundam de metalinguagem e refer�ncias. Audition trafega pelo cinema de g�nero sem d�vida com ironia, quebrando um conjunto de regras seja de estilo, seja do pr�prio g�nero ou mesmo gramaticais. Audition possui in�meras quebras de eixo, e mesmo assim o espectador nunca fica desorientado dentro do espa�o, porque em seus filmes os personagens possuem vida e o plano est� quase sempre coberto por eles.

Se o espectador fica chocado como Miike invade a privacidade de seus personagens, especialmente na cl�ssica cena de tortura, a c�mera quase sempre (com exce��o em alguns dos flashes da "alucina��o") mant�m uma dist�ncia respeitosa de seus personagens, como o bom cinema japon�s.

Audition � acima de tudo um filme extremamente corajoso e extremamente amb�guo. Por um lado, sua estrutura pode parecer um jogo para o espectador descuidado, que ir� se divertir enquanto tenta montar suas pe�as, e ir� perceber o filme como um sarc�stico Atra��o Fatal. Da� sua estranheza at� certo ponto conquista uma parcela do p�blico. Mas sua coragem, mesmo para esse p�blico, reside no fato de Miike dialogar com dois g�neros quase opostos: quem gosta do tipo de filme relacionado � primeira parte dificilmente gosta do relacionado � segunda, ou vice-versa.

Por mais de uma hora de filme, Audition � um drama rom�ntico quase � moda de um Notting Hill ou um O Casamento do Meu Melhor Amigo. Aoyama, que trabalha numa companhia que produz v�deos, sente a falta de uma companheira ap�s a morte de sua esposa. Ele vive com o filho adolescente, que acaba de arrumar uma namorada, o que deprime mais ainda o pai. Ele precisa de uma atriz para o filme e de uma mulher em casa. E parte � procura dela fazendo um teste de sele��o. Seus dotes de atriz pouco importam: na verdade, Aoyama procura uma mulher, e n�o um personagem.

Ele se apaixona instantaneamente por Asami, ou melhor, pela est�ria de Asami. Ele l� em sua ficha que ela queria ser bailarina, mas sofrera um acidente que a impediu de manter seu sonho. Ela j� est� escolhida; o teste torna-se mera rotina. No entanto, seu amigo o previne. O filme se transforma em um suspense, um filme de espionagem. Ser� a mulher uma psicopata? Em seu primeiro encontro com Asami, ap�s dormirem juntos, ela simplesmente desaparece. Ele a procura insanamente, e descobre que ela est� envolvida em uma s�rie de assassinatos e desaparecimentos misteriosos. Seu amigo quer que ele desista, mas nada o convence: ele precisa procurar a misteriosa mulher. Nem porque ele a ame tanto, mas ele precisa descobrir a verdade.

Quando ele finalmente a encontra, o filme sofre uma s�rie de transforma��es bizarras. Tudo come�a quando ele sofre um tombo em casa. Naquele r�pido instante, uma s�rie de id�ias desordenadas v�m � cabe�a de Aoyama. Asami � de fato uma psicopata, e tortura Aoyama de forma cruel, poucas vezes vistas no cinema. Torna-se ent�o um filme de terror. Ela decapita um antigo professor, corta os p�s de Aoyama, enfia agulhas que lhe causam uma dor inexprim�vel. Aoyama n�o tem sa�da a n�o ser sentir uma dor extrema e profunda. No final, o filho chega e interrompe Asami, que fica estatelada no ch�o, ao lado do corpo mutilado de Aoyama.

Se as reviravoltas narrativas surpreendem o espectador, que v� uma despretensiosa fita rom�ntica se transformar subitamente num terror expl�cito, isso n�o deve iludir o espectador mais atento. Quem acha que o cinema de Miike � o estere�tipo do cinema moderninho, que brinca com a narrativa e subverte a no��o de g�nero, acaba tendo uma vis�o muito redutora de seu cinema. Seu projeto � muito mais instigante e sutil.

Nos filmes de Miike, a realidade e a fic��o se fundem de tal forma que n�o faz mais sentido dizer qual inst�ncia precede a outra. Em Audition, isso est� expl�cito. Aoyama quer fazer um filme, � dono de uma produtora de v�deos. Ele precisa de uma atriz e uma esposa; uma mulher no filme e em casa. � nessa polaridade que reside a base do filme e da filosofia de Miike. Aoyama n�o escolhe Asami pelo que ela �; ele se baseia em sua ficha, em seu "roteiro", em uma representa��o, � apenas o que est� escrito. Isso � importante, porque Aoyama n�o est� interessado na atriz, e sim na mulher. E essa mulher n�o � atriz, mas isso pouco importa para Aoyama. Ele est� enfeiti�ado por uma imagem que ele construiu dessa mulher, a partir de sua ficha. � preciso tamb�m observar que Asami fala mais de uma vez que n�o quer ser simplesmente uma hero�na, ela quer ser uma hero�na da vida real. Essa � a frase-s�ntese das pretens�es de Audition, que j� se expressa pelo t�tulo. � preciso tamb�m observar que Asami pune Aoyama n�o porque ele n�o a ama, mas pelo contr�rio, porque ele ama demais.

Nos primeiros planos de Audition, Aoyama nunca aparece de frente, sempre de costas ou de lado para a c�mera. O primeiro plano em que ele aparece de frente � num close up. Vemos a rea��o de Aoyama quando sua secret�ria boboca anuncia seu casamento. Todo o conflito de Aoyama est� perfeitamente contido nesse plano. Quando Aoyama vai a sala para pegar seu cachorro, est� claro para n�s que seu �nico interesse � ver como � a namorada de seu filho. E ela � bonita, simp�tica, parece uma pessoa realmente legal. Por que ele, bem-sucedido, tranq�ilo, gente boa, � o �nico que parece estar sozinho? O que h� de errado com ele?

A escolha de sua futura esposa leva a situa��o ao paroxismo. Por um lado, � certo que o c�njuge � o �nico parente pr�ximo que se pode escolher, como diz um velho ditado. Por outro, n�o se faz entrevista para escolher um amor.

Aoyama realmente ama Asami? Por que ele se interessou justamente pela pessoa de trajet�ria mais dram�tica, mais sofrida?

Aoyama de fato ama a imagem que ele fez dela, ama essa representa��o criada. O primeiro encontro dos dois � crucial nesse sentido. Por um lado, Asami � de fato como a representa��o que Aoyama fez dela? Mas a grande pergunta de Audition �: se ela o for, por que ela escolheria justamente Aoyama? O que ele teria para encantar uma mulher t�o doce quanto Asami? Ou ainda, porque Asami continua sozinha se possui tantos atributos, se conseguiu passar num teste de sele��o com tantas outras candidatas? Ora, a �nica resposta poss�vel � que Asami deve ter algum problema.

Miike nunca debocha de seus personagens. O humor que alguns podem extrair do filme surge a partir de refer�ncias fora do mundo da diegese, surge basicamente desse estranhamento. Os tortuosos flashbacks exprimem exatamente esse paradoxo, central no cinema de Miike: est�o no limite entre um rigoroso realismo e o mais absurdo ilusionismo, o das hist�rias de quadrinhos, ou melhor, o do cinema. � nesse ponto preciso que se situa a imponderabilidade do cinema de Miike. Seu cinema � ao mesmo tempo profundamente humano e profundamente formalista.

� um cinema que parte da dor e da impossibilidade da dor, e da� situa o papel do espectador. Se o espectador sofre com os abusos de Miike, no fundo ele n�o sofre nenhum arranh�o, est� intacto. � tamb�m essencialmente um cinema da perda, da aus�ncia, da busca por um objetivo que parece se esgotar por si s�, extremamente simples, mas que de repente se torna abissalmente distante. � um cinema da incongru�ncia dos caminhos mais lineares, e ainda da simplicidade dos caminhos mais sinuosos. � profundamente japon�s e essencialmente americano. � um cinema globalizado que fala da impossibilidade da globaliza��o. � um cinema basicamente antigo mas ainda assim extremamente moderno.

O final de Audition incomoda o espectador com sua sutileza, porque se leva a s�rio at� o extremo, al�m do inexaur�vel. O filho de Aoyama chuta Asami, que cai de uma escada. Ela fica estirada, estatelada no ch�o, im�vel e repetindo as frases de amor como um rob� com defeito, com curto-circuito. Ainda que distantes, seu olhar cruza com o de Aoyama, estirado no ch�o, ainda paralisado, repleto de agulhas e com o corpo mutilado. Como no final de Matou a Fam�lia e Foi ao Cinema, � um final que fala de amor, terno, apaixonado e apaixonante.

Marcelo Ikeda

10/10/2001.

 

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