A ILHA |
H� algo de inquietante em A Ilha que se manifesta ainda depois que se encerra o filme. A plat�ia por vezes ri um riso nervoso, sai em disparada do cinema assim que surgem os cr�ditos finais. Torna-se quase uma rea��o de defesa. A Ilha � um exemplo de um cinema oriental mais radical, avesso a um cinema de vertente mais claramente humanista, mas acentuadamente psicol�gico, perturbador, e radicalmente econ�mico em seu distanciamento e sua nega��o de uma causalidade expl�cita. O fasc�nio que A Ilha provoca, seu tom taciturno e sinistro, est� diretamente relacionado a uma tens�o entre o realista e n�o-realista em que o filme se equilibra. O cen�rio � uma ilha distante, num local e tempo n�o completamente determinados. Existe uma mulher soturna, que n�o fala uma �nica palavra durante o filme; suspeitamos inclusive que ela seja muda. Ela possui um certo poder sobre os outros moradores da regi�o. Eles moram em pequenas ilhas m�veis, sobre as quais existe apenas o espa�o para uma casinha de um �nico c�modo. O poder que esta mulher exerce � devido a um barco que ela possui e que permite esses moradores eventualmente se transportarem de um local para outro. Essa mulher n�o mora em uma dessa ilhas m�veis, mas sim no continente. O exemplo da ilha � comum para se falar de situa��es-limite, de isolamento e incomunicabilidade, e do tom animalesco que rege a natureza humana. Em A Ilha n�o � diferente. Mas o que assusta � o estilo sem concess�es de Ki-Duk, sua consci�ncia em trabalhar os elementos de linguagem, sua op��o por um cinema �rido e angustiante. Nesse ponto, torna-se t�o tipicamente oriental quanto um A Mulher de Areia, de Teshigahara. Mas agora o tal vazio da condi��o humana � associado a um cinema quase p�s-moderno, em que as causalidades s�o pouqu�ssimo expl�citas. Masi ainda assim est� claro que o objeto de Ki-Duk � o homem, ou melhor, seus personagenbs,m que est�o no limite de ser alguma coisa, homens, animais ou objetos. Em A Ilha, quase n�o h� palavras, mas isso n�o significa que os personagens n�o interajam. Os personagens querem se comunicar, buscam o contato, e isso � que � o mais interessante do filme. S�o portanto humanos. Se a situa��o f�sica � limite (com o isolamento da ilha), as condi��es psicol�gicas tamb�m o s�o. Ali h� sociedade, mas os homens vivem praticamente sem objetivos. H� sem d�vida a quest�o da estrat�gia (por exemplo quando o homem foge dos policiais) mas h� aicma de tudo uma extrapola��o dos sentidos e do car�ter instintivo. Os personagens s�o homens-animais-objetos. � um filme que oscila entre o cruelmente doce e o docemente cruel. Os personagens por ora s�o ing�nuos (como o homem que chama a prosituta para colocar ci�mes na mulher, ou mesmo na rea��o exagerada da prostituta que gosta de seu cliente), por ora s�o s�rdidos, cru�is (a mulher mata a prostituta, o gentil rico d� um tapa na cara da prostituta por deixar cair seu rel�gio de ouro), por ora s�o tolamente apaixonados, outros, pat�ticos. N�o se pode negar que s�o pergonagens humanos, t�o humanos (ou demasiadamente humanos): matam, dormem, transam, tem amor, �dio, vingan�a, poder, etc. Os momentos mais radicais do filme s�o quando levam ao extremo a impot�ncia f�sica. S�o momentos fortes, mas nunca banais, apenas para impressionar o espectador. Ao contr�rio, s�o pontos-chave do filme. Num magistral paralelismo, o homem � como a mulher, dependentes, pat�ticos, frutos de uma armadilha, impotentes, fr�geis, mas que ainda bravamente procuram resistir. O tom de dramaticidade � quase insuport�vel. Porque a dor f�sica ainda nos � quase insuport�vel, e sempre � bom sermos lembrados disso. Ki-Duk, que tamb�m assina a interessant�ssima dire��o de arte do filme (as cores das casas sempre t�m uma fun��o, etc.), � sempre consciente da dif�cil tarefa do seu filme e da consci�ncia de expor seus personagens. Ele n�o tem carinho por eles, mas brinca com isso. Quando come�amos a nos identificar com o entrecho rom�ntico, com a aproxima��o da mulher e do homem, Ki-Duk quebra essa possibilidade, faz seus personagens serem pat�ticos, desequilibrados. �s vezes, inclusive toca em um tipo de humor, consciente da situa��o quase absurda do filme (o homem procura um banheiro dentro de casa, o homem abana a mulher no local machucado, etc). � interessante observar o belo in�cio do filme. N�o h� uma apresenta��o; entramos de cara no universo do filme. A mulher se prostitui com um grupo de jogadores. A mulher n�o mais se prostitui ao longo do filme; os jogadores desaparecem. H� de se notar tamb�m o belo uso do plano geral, inclusive em situa��es bastante dram�ticas (a primeira tentativa de contato entre o homem e a mulher, que quase resulta em um estupro) Ainda que a trilha sonora destoe do universo sinistro do filme e que o final reduza a for�a e a economia que reinam em todo o filme, a Ilha � um exemplo de um cinema em falta nos dias de hoje, que leva sem restri��es um projeto de cinema consciente, que fala do absurdo da condi��o humana de forma madura, moderna e absolutamente cinematogr�fica. Marcelo Ikeda 29/09/2001. |