DUAS VEZES COM HELENA |
H� algo de errado desde o in�cio de Duas Vezes com Helena. � o modo sol�cito como o professor recebe seu aluno, � a eleg�ncia estilizada da dire��o de arte, s�o os enquadramentos esguios e a movimenta��o de c�mera titubeante. A princ�pio, at� suspeitamos que Duas Vezes com Helena seja mal filmado. Mas aos poucos percebemos a insist�ncia de Mauro Farias, vemos que essa ambig�idade se manifesta de forma cada vez mais intensa e asfixiante. Mesmo inquietos em nossas poltronas, continuamos desconfort�veis. Se h� uma calmaria natural no di�logo informal entre professor e aluno, existe uma tens�o, uma intriga, que se manifesta atrav�s de uma polidez quase desnecess�ria, de uma futilidade mesquinha que reina sobre aquele ambiente. H� uma sensa��o de falso que domina o filme e que tanto nos perturba. Todo o filme se desenvolve em torno do ponto de vista da personagem de F�bio Assun��o, cujo nome n�o � apresentado ao longo de todo o filme, quase como no processo kafkiano. Com isso, estamos imersos no centro de todo o conflito que envolve o filme, mas n�o nos damos conta disso, como o pr�prio F�bio Assun��o. Ou melhor, paulatinamente vamos adquirindo a consci�ncia, assim como a personagem, de que algo deve estar errado, mas n�o sabemos ao certo o qu�. Quando F�bio Assun��o volta de sua viagem � Europa e reencontra o professor, a estrat�gia de Mauro Farias come�a a se evidenciar. � um filme regido por olhares de soslaio e incongru�ncias programadas. � o sutil fundo pol�tico do fascismo e do integralismo, associado a uma aliena��o. S�o as hipocondr�acas consultas m�dicas; � a insist�ncia do professor em nunca apresentar sua esposa. Finalmente, a estada de F�bio Assun��o em Campos do Jord�o. O professor n�o est�, apenas sua esposa, Helena. Ela n�o quer que ele entre, mas ao mesmo tempo n�o o deixa fugir. A princ�pio, pensamos que faz parte de uma t�pica estrat�gia rom�ntica. A mulher atraente, bem mais jovem que o marido, se sente imediatamente atra�da por F�bio Assun��o, mas guarda uma certa culpa, n�o quer escancarar sua atra��o desde o in�cio. Mas ainda assim percebemos que tudo est� preparado para a trai��o. � como se desde o come�o a mulher j� desejasse trair o marido, mas sentisse um certo receio de faz�-lo. Ou ainda como se ela lutasse em v�o contra uma libido que por fim a domina completamente. � pelo menos dessa forma que n�s, assim como F�bio Assun��o, tentamos entender a estranheza da cena. Helena possui uma postura extremamente amb�gua. Por um lado, mostra um desprezo pelo rapaz: praticamente n�o lhe dirige a palavra, desvia o olhar. Por outro, � exatamente esse comportamento que nos mostra o quanto � inevit�vel sua aproxima��o com seu visitante. J� est� claro para todos n�s que os dois devem ter um caso amoroso no momento em que Helena abre a porta. Isso, claro, j� est� justificado por toda a estrat�gia de flashback em que se baseia o filme, al�m de seu pr�prio t�tulo. Torna-se quase um filme estranhamente naturalista. Helena � quase uma escrava do sexo: fora da cama, praticamente despreza o rapaz. Mas � na cena do jantar que a estrat�gia de Farias se revela de forma mais exemplar. A cena possui um irresist�vel charme, um toque de sedu��o. No entanto, o constrangimento � evidente. N�o existe a t�pica prepara��o dos filmes rom�nticos, mas, por outro lado, o jantar � especial, preparado com anteced�ncia. O fato de Helena n�o olhar para F�bio Assun��o � a evidencia��o do projeto de Farias. Seu filme, assim como o olhar de Helena, � obl�quo, curiosamente estranho, mas ao mesmo tempo possui um contorno fetichista, e tem como �nico objetivo envolver-nos, seduzir-nos, ou melhor, enganar-nos, assim como ela o faz com F�bio Assun��o. A sofistica��o das desnecess�rias gruas, a charmosa fotografia, a requintada dire��o de arte e o excesso quase escandaloso de fus�es procuram nos enfeiti�ar com sua suposta beleza, mas querem no fundo nos usar, aproveitar-se desse arrebatamento para desferir seu golpe derradeiro. Todo o clima de filme rom�ntico e o trabalho de �poca em Duas Vezes com Helena s�o ilus�rios. Os amores no filme sempre s�o solit�rios, nunca rec�procos. Da mesma forma, o filme come�a, a partir dessas incongru�ncias mal resolvidas, a adquirir um aspecto de suspense. Um outro diretor poderia optar por uma atmosfera t�pica de um filme noir, porque Duas Vezes tem v�rios pontos em comum com o g�nero e claramente fala sobre o destino. Mas o trunfo de Farias � exatamente ir no limite do implaus�vel, tendo sempre como base da sua hist�ria uma linha eminentemente realista. Com isso, se o filme pode, com toda a raz�o, ser rotulado como estilizado, seu suposto esteticismo serve justamente de apoio-base � narrativa, pois o interesse primeiro de Farias continua sendo contar uma simples hist�ria e conquistar o espectador. Ainda assim, o m�rito de Farias na adapta��o do conto de Paulo Em�lio Salles Gomes est� exatamente em construir a ambig�idade que rege o filme atrav�s de um cinema de climas e d�vidas. Na cena do jantar, o projeto de Farias se explicita porque o filme claramente se revela com base no humor. N�o se torna uma com�dia, mas revela sua ironia. Quando F�bio Assun��o ri de suas pr�prias piadas, o p�blico fica atordoado. Em geral, n�o o acompanha, e se o faz, � pelos motivos errados. Se o subestimado N�o Quero Falar Sobre Isso Agora falava sobre um cinema que tinha de fugir de si mesmo para sobreviver, ou melhor, da melancolia e do absurdo dessa necessidade niilista de evitar qualquer possibilidade de compromisso, Duas Vezes com Helena tamb�m procura desmascarar os edemas de um mundo com regras pr�prias, desvelar a hipocrisia das apar�ncias que regem a rela��o de pessoas que dependem fortemente umas das outras, mas que n�o podem admitir suas fraquezas para o outro. O �nico pecado de Duas Vezes � quando Farias decide justificar um a um os mecanismos que engendraram toda a constru��o m�rbida do filme. O professor havia ficado indeciso para marcar o dia da visita de F�bio Assun��o porque precisava consultar a tabela dos dias f�rteis de Helena. As consultas m�dias existiram porque o professor precisava ter certeza da fertilidade do rapaz. O problema est�, portanto, na explicita��o dos porqu�s. Quebra-se assim parte do encanto funesto que envolve o filme. No entanto, denota seu aspecto auto-referencial. A estrat�gia do casal revela, num outro n�vel, a pr�pria estrat�gia de Farias para construir o filme. A cena da confiss�o ocorre numa externa, em contraste com o clima sempre claustrof�bico que permeia o restante do filme. Apesar de a proposta de Duas Vezes com Helena ser eminentemente narrativa, o p�blico tem recebido o filme de forma bastante negativa. Isto porque o p�blico est� acostumado �s conven��es dos filmes rom�nticos e de �poca. Como o filme dialoga de forma amb�gua com esses limites, infere-se simplesmente que Mauro Farias n�o sabe filmar. O espectador n�o absorve o estranhamento como parte de uma estrat�gia, mas o filme � estranho simplesmente porque o diretor n�o o soube fazer "corretamente". Da mesma forma que N�o Quero Falar sobre Isso Agora, seu filme anterior, o destino de Duas Vezes com Helena parece ser o de um filme maldito. Talvez a sutil ironia sard�nica de Farias seja indigesta aos pac�ficos rumos do atual cinema brasileiro. Marcelo Ikeda 12/10/2001. |