TOPSY-TURVY |
Mike Leigh � um diretor conhecido por filmes intimistas, que exploram as frustra��es e as alegrias dos relacionamentos humanos. Topsy-Turvy � um filme at�pico em sua filmografia, por sua preocupa��o extrema com a arte e a �poca, os figurinos, a dura��o prolongada e a fotografia. Embora um filme dif�cil para o p�blico menos paciente e que n�o gosta de �pera, TT � um filme comovente, e que somente expressa a maturidade desse realizador ingl�s. Sem recursos f�ceis para impressionar o espectador, convence por sua sinceridade e sua sutileza. Por isso, TT n�o � um daqueles filmes de �poca est�reis. Sua proposta est� intimamente realizada com a pr�pria ess�ncia do cinema. Isso porque na verdade o grande tema de TT � o processo de produ��o de uma obra de teatro, o que guarda todas as analogias com o fazer de um filme. Da� � um filme essencialmente metalingu�stico.Vemos a rela��o entre os produtores e os realizadores da pe�a, um certo jogo de vaidade entre dois realizadores do mesmo teatro, os conflitos pessoais do realizador. Os melhores momentos s�o os dos ensaios. Esses "tempos mortos", quase sempre esquecidos pelo espectador, que somente v� o resultado final de um espet�culo, s�o o cerne do filme de Leigh. Em um ensaio com os atores, as falas s�o repetidas v�rias e v�rias vezes, sendo os atores corrigidos pelo diretor. Em outra cena, o diretor est� ao piano. Em outra bela cena, ele corrige a artificialidade de um andar que julgam parecer japon�s para incorporar algo que todos cr�em ser rid�culo, ou apenas um capricho do diretor. Al�m de tudo, o pr�prio fato de incorporar um espet�culo japon�s representa como os autores recebem influ�ncias externas, e sabendo digeri-las, conseguem produzir bons produtos. Em outra cena, os atores reclamam com o diretor sobre o figurino que n�o incorpora o espartilho, ou mesmo que a saia � curta demais para os "bons costumes" do local. Al�m disso, as cenas musicais do espet�culo s�o extremamente bem filmadas. Como recomendava Bazin, Leigh n�o filma a pe�a como sendo a pr�pria diegese do filme, mas sempre incorpora o enquadramento dentro do enquadramento (deixando claro que � um filme sobre uma pe�a, e n�o que a pr�pria pe�a � o filme), e tamb�m a rea��o dos espectadores (veja a abertura de A Flauta M�gica de Bergman, p ex). Em paralelo, registra-se a expectativa dos demais membros da equipe fora do palco ( o m�sico, os outros atores a entrar em cena, o figurinista...). Extremamente comovente e interessante � a reuni�o final no dia anterior � pe�a. Cada membro do staff passa suas �ltimas recomenda��es, inclusive o diretor. Ele at� acaba voltando atr�s em uma de suas decis�es a pedido de todos (n�o excluindo um dos solos). No dia da estr�ia, vemos o nervosismo do diretor, desmistificando a figura do g�nio irasc�vel. Sem utilizar maneirismos que chamem a aten��o para seu estilo, � de forma discreta e sutil que Mike Leigh realiza com maturidade uma grande homenagem a este grande of�cio que � o processo de realizar um espet�culo teatral, que, por analogia, nos remete ao cinema. Marcelo Ikeda 05/10/2000. |