A VIÚVA DE SAINT PIERRE |
| O novo filme de Patrice Leconte é um denso drama de época. Como sempre, há um belo trabalho de fotografia (widesreen), direção de arte e figurinos para a reconstituição de época. O filme consegue sair da armadilha de sr apenas isso como um Leste/Oeste, e apresenta uma situação dramática convincente que será desenvolvida de forma intensa. Isto é, ao contrário desses filmes intoleráveis e insípidos de época, o protegonista não é a época ou a fotografia, mas o situação dramática que envolve os personagens. Leconte consegue envolver o espectador em situações que a princípio pareceriam implausíveis, e seu filmes possui inegavelmente uma atmosfera de suspense contínuo. Contribuem para isso as notáveis interpretações do trio de atores: a sempre formosa Juliette Binoche, Daniel Auteil e Emir Kusturica. O filme é baseado em uma situação interessante. Um assassino confesso é condenado à morte numa pequena ilha na França. Mas no remoto local não há uma guilhotina, encomentada à capital. A esposa do comandante da prisão acaba se apiedando do homem, e passa a tratá-lo de forma condescendente. O condenado corresponde, inclusive salvando um vagão de madeira que estava fora de controle. Passa a ser querido pelos locais por sua sobriedade. O prefeito da ilha passa a se irritar com o comandante da prisão, que se mantém apoiando a esposa. A guilhotina enfim chega. Finalmente conseguem arrumar um carrasco. O comandante da prisão insinua que o povo pode provocar um motim. È destituído do cargo, considerado traidor e condenado à morte. Sua esposa quer que o condenado fuja, mas ele se resigna a seu destino, e volta para a prisão. Ele é de fato guilhotinado. A meu ver, o grande problema do filme é que ele se baseia em relações que não se completam. O roteiro encaminha o espectador para uma direção, e frustra todas as espectativas de realização, deixando a história sem uma conclusão convincente. Dependendo do ponto de vista, isto pode ser um ponto a favor ou contra. Nesse caso, pela sobriedade do filme, e sua estrutura narrativa convencional, julgo um erro. Por exemplo, não se caracteriza de forma adequada o fato de o marido permitir a lenta aproximação de sua esposa do prisioneiro. Por que o comandante permite que o condenado fique tão livre? Especialmente, todo o filme sugere um triângulo, e um caso entre a mulher e o condenado. Há um plano em que ela o ensina a ler e seus dedos se tocam pelo papel. Em outro, Binoche flagra o condenado com outra mulher na cama. A troca de olhares, o diálogo sugestivo quando ele carrega o trenó (ela pergunta: por que você faz tudo o que eu digo?), enquanto o marido os observa de longe, a advertência do prefeito que a cidade comenta que sua esposa e o condenado estão muito próximos ... são fatos que sugerem ou uma aproximação entre o condenado e a mulher, ou um claro conflito entre o comandante e o condenado. Da mesma forma. É difícil entender porque binoche resolve libertar o prisioneiro, sabendo que seu marido seria punido pelo fato, e muito menos se entende porque este permite tacitamente o fato. O povo, que ameaçava realizar um motim, simplesmente não é mostrado durante a execução. O carrasco, que aparentemente seria ameaçado pelo povo, se mantém intocado. Quebrando essas espectativas, o filme perde sua força no final, apesar da austeridade e da crueza do final infeliz e sem restrições românticas. Ficxa a sensação de um roteiro que precisava de mais tratamentos, e que não se fecha de forma convincente. Mas de modo geral, a importância da ação dramática num filme de épica o torna menos insosso do que outros filmes do gênero. Marcelo Ikeda 02/10/2000. |