AS RUAS DE CASABLANCA |
Esse filme marroquino � uma das gratas surpresas do festival, que infelizmente deve passar despercebido pelo p�blico e pela cr�tica carioca. O p�blico na vazia sess�o que acompanhou o filme reagiu muito bem � sens�vel hist�ria de tr�s meninos de rua que tentam arrumar dinheiro para enterrar dignamente um amigo morto por uma pedrada de um grupo rival. Na verdade, n�o chega a ser um filme que impressione ou que trabalhe com criatividade qualquer recurso de liguagem. � um filme convencional sobre meninos de rua, e assim deve ser visto. Mas em alguns momentos e que n�o s�o esparsos, o filme trabalha com maturidade e at� alguma ousadia o tema em quest�o. De modo geral, como sempre, a id�ia do filme � comover o espectador para o drama dos meninos, e esses s�o os piores momentos do filme. Vemos o sonho do menino em ser marinheiro, o menino que vai visitar a m�e do menino morto, uma partida de futebol com latas, o grupo rival violento e por a� vai. Mas em outros momentos o filme toca em alguns pontos pouco explorados por outros filmes do g�nero. J� em seu come�o, o filme abre com uma imegem s�ntese. Vemos numa reportagem de televis�o o depoimento de um menino de rua. Perguntado porque ele fugiu, ele responde asperamente que n�o fugiu, simplesmente siu de casa. Isso sutilmente entra em choque com sua posterior afirma��o. Sua m�e queria vender os seus olhos para um comerciante em troca de dinheiro, e por isso ele resolver ir para as ruas. Depois, diz que agora sua m�e est� morta. Mais tarde no filme, descobrimos que sua m�e est� viva e que toda sua hist�ria � mentirosa. Na verdade, Ali saiu de casa por ter vergonha de sua m�e, que � uma prostituta. Na cena da reportagem, ap�s o depoimento deslavado do menino, a diretora pede ao c�mera para "fechar no menino", e diz "isso, muito bom, corta". J� nesse come�o, o filme mostra a hipocrisia das reportagens de televis�o, superficiais em rela��o ao objeto estudado. Ali � o personagem principal do filme, o mais carism�tico e mais independente. Com apenas cinco minutos de filme, o espectador rapidamente se identifica e passa a torcer pelo personegm e por sua viagem para a ilha de dois s�is. Mas logo em seguida o garoto morre, uma morte �-toa. Ali fugira de casa n�o porque apanhava dos pais ou porque n�o recebia carinho, etc mas por um conflito perfeitamente desenvolvido. Ele morre entre aspas defendendo a m�e. Novo conflito. A tentativa dos meninos em enterrar seu companheiro � comovente quando evita comover o espectador em excesso. De fato, esses meninos roubam, cheiram cola, e maltratam pessoas que a princ�pio n�o lhe fizeram nenhum mal. Irritado com a recusa da m�e de Ali, ao lhe contar da morte do filho, o menino chuta a caixa de cigarros de outro, que momentos antes lhe ajudara. Em outra cena, outro menino chuta um cachorrinho que queria lhe fazer companhia. E o ponto mais interessante do filme � como explicitamente se apresentam as rela��es sexuais entre os meninos, coroada pela homossexualidade. Mesmo entre o trio principal, num dado momento, um dos garotos diz que sente falta de todos dormirem juntos. Marcelo Ikeda 08/10/2000. |