O CAMINHO PARA CASA

Zhang Yimou � o grande expoente da nova gera��o de cineastas chineses que ganharam destaque no final dos anos 80. Com filmes como Sorgo Vermelho, Lanternas Vermelhas e Amor e Sedu��o, o cineasta mostrava um painel da China lutando contra suas contradi��es, mas sempre tratando com dignidade o drama de seus personagens, especialmente as mulheres. Mas aos poucos, sua carreira entrou em um certo marasmo. O cinema chin�s acabou perdendo o destaque nos festivais internacionais, despontando o cinema iraniano e outros pa�ses orientais.

Com Nenhum a Menos, o cineasta resolveu dar uma virada ao avesso em sua filmografia. De uma certa forma, conseguiu, ganhando o principal pr�mio em Veneza. Logo em seguida, realiza este O Caminho Para Casa, garantindo o Urso de Prata em Berlim. Com esses dois filmes, Yimou volta a ter seus filmes comentados como a grande expectativa dos festivais.

Uma pena. Nenhum a Menos � o s�mbolo dessa nova fase de Yimou e dos rumos do tipo de cinema que acaba sendo bem recebido nos festivais. � um cinema utilitarista ao extremo, reacion�rio, que abusa dos clich�s e reduz os personagens a caricaturas como no pior cinema americano. Revestido de um pseudo-humanismo, de belas imagens ocas que abusam de um sentimentalismo artificial, Yimou na superf�cie de seu filme parece estar tratando de rela��es humanas e do conflito entre tradi��o e modernidade t�picos do cinema oriental, mas na verdade o espectador mais atento pode constatar um profundo desrespeito a uma vis�o de mundo (leia-se oriental) e especialmente a uma vis�o de cinema que ele pr�prio construiu em seus primeiros filmes.

O cinema americano dessa nova fase de Zhang Yimou agrada aos festivais, agrada ao p�blico, agrada ao cineasta, que novamente v� seu nome em alta estima. Mas � um dever daqueles que prezam pelo bom cinema condenar acintosamente o cinema covarde que Yimou vem promovendo. A covardia de Yimou se expressa especialmente em seu olhar em rela��o a uma China interior, rudimentar em termos econ�micos, que entra em contato com a civiliza��o. O preconceito, a vis�o simpl�ria dos conflitos, o drama humano como uma caricatura est�o t�o arraigados nesses filmes que parece imposs�vel consider�-los como fruto do mesmo diretor de Lanternas Vermelhas.

Se Nenhum a Menos tem a inten��o de jogar toda a tradi��o de s�culos e s�culos da cultura oriental pela latrina, O Caminho de Casa aparentemente procura se redimir, mas no final opta pelo mesmo caminho. No primeiro, o interior, a tradi��o perdem o sentido para o capitalismo, o materialismo da grande cidade. Neste, parece que Yimou valoriza a cidadezinha e a vida do professor. De fato, ele acabou sendo carregado pelos homens que recusaram o dinheiro pago pelo filho, enfrentando a neve espessa e recusando os mec�nicos tratores. O filho de fato profere uma aula na antiga escola do pai, realizando seu sonho. Vemos a for�a do amor puro e verdadeiro da menina que venceu todas as dificuldades, e o casal, que permaneceu no interior. Vemos a m�e recusar a m�quina de costura, permanecer na cidadezinha, e vemos o filho tomar consci�ncia da vida dos pais, e entender a op��o da m�e em manter a tradi��o de levar o caix�o do esposo nas m�os.

Sim, de fato, vemos tudo isso, mas como vemos? Da forma mais torpe poss�vel. Novamente Yimou, por incr�vel que pare�a, quer destruir o conflito entre tradi��o e modernidade, dizendo para o espectador que no fundo o conflito n�o tem muita import�ncia. Um tema t�o �ntimo da cultura oriental recebe um tratamento com o intuito de banalizar o conflito, relagando-o como o pano de fundo de uma hist�ria amorosa que foi contada e recontada inclusive pelo cinema americano. Da� o conflito, se houver, n�o � tratado como intr�nseco � cultura oriental, � moderniza��o obtusa empreendida por esses pa�ses, mas generalizado como uma grande hist�ria de amor. O estilo cor-de-rosa do flashback em cores passa a ser o ponto central do filme. O presente � um mero acess�rio para que se intensifique no espectador a sensibilidade em rela��o ao flashback. Por exemplo, num filme t�o comercial quanto o recente � Espera de um Milagre (ou mesmo Titanic) o flachback � utilizado com o mesmo intuito. A narrativa em flashback (que ali�s possui in�meras contradi��es em termos de ponto de vista) vai no sentido da dita globaliza��o. Para Yimou, falar em cinema oriental n�o faz mais sentido, e seu filme procura desesperadamente resgatar os conflitos intr�nsecos a esse tipo de cinema e convert�-los de forma que o espectador sinta que no fundo eles s�o a mesma hist�ria que o cinema hegem�nico, globalizado (isto �, americano) sempre contou, conta e contar�.

A estrat�gia de Yimou � a sutileza, o que s� nos lembra da famosa teoria de Baudry do dispositivo como produto alienante. Mas se Nenhum a Menos � desastrado porque de forma direta incorpora v�rios elementos a favor da dita civiliza��o, neste, o intuito � ainda mais sutil. Yimou conta belas hist�rias, com imagens que impressionam o espectador, e especialmente utiliza o cl�ssico recurso da identifica��o. Sem d�vidas, Yimou sabe como filmar bem, e esse � o grande perigo de seus filmes. Se na superf�cie O Caminho Para casa parece ser uma tenra e bela f�bula universal que poderia ser passada em qualquer tempo e em qualquer lugar, no fundo essa � a estrat�gia de Yimou para afirmar que uma das poucas culturas de resist�ncia no mundo de hoje � no fundo a mesma cultura do mainstream. Isso j� � o sufiente para tornar Zhang Yimou o cineasta mais fascista desse final de s�culo.

Marcelo Ikeda

08/10/2000.

 

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