Outros filmes do Festival (em ordem alfab�tica) |
ASSIM � A VIDA (Arturo Ripstein, M�xico) -
Ripstein procura incorporar as especificidades da c�mera digital na est�tica de seu filme, recusando o campo-contracampo para compor seu filme em longos planos-sequ�ncia, ganhando um tratamento mais intimista e trabalhando com o tempo para espelhar uma certa irreversibilidade. Outros exerc�cios est�ticos merecem destaque, como a tentativa de utilizar uma certa profundidade de campo mesmo com o digital. O diretor trabalha com a f�rmula do melodrama como principal refer�ncia. No entanto, o tratamento psicol�gico dos personagens muitas vezes esbarra no caricato ou no superficial, tornando o filme mais um exerc�cio de estilo do que um pensamento sobre os novos caminhos do melodrama.
BAISE MOI (Irm�s Despentes, Fran�a) - � Filme que se finge de radical com o �nico objetivo de chocar a plat�ia, tem cenas de viol�ncia e sexo expl�citos em excesso. Com uma estrutura t�pica dos filmes porn�s com alguma hist�ria, a filmagem em digital insere uma precariedade aproveitada pelo filme. Beirando ao rid�culo em todos os aspectos, � um Bonnie and Clyde p�s-feminismo de Thelma e Louise, claramente mal intencionado e candidato a pior do festival.
BICHO DE SETE CABE�AS (La�s Bodanski, Brasil) - � Inconsequente filme sobre adolescente que, incompreendido pelos pais, acaba sendo internado em uma cl�nica psiqui�trica, trata o tema como um clich� que em nada contribui para uma melhor vis�o da rela��o entre pais e filhos, e que trata os problemas do adolescente como uma grande caricatura. O argumento quase kafkiano do absurdo da situa��o � explorado de forma ing�nua, com nuances de Um Estranho no Ninho. A fraca interpreta��o de Rodrigo Santoro torna ainda mais improv�vel um maior componente dram�tico.
BRAVA GENTE BRASILEIRA (L�cia Murat,
Brasil) - Fugindo dos lugares-comuns dos temas hist�ricos sobre o contato de �ndios e nativos, L�cia Murat faz um interessante painel sociol�gico da tens�o que envolvia a regi�o. Atrav�s da vis�o de um portugu�s que chega a uma das capitanias, s�o contrapostas e problematizadas as vis�es do estrangeiro, dos l�deres locais, dos �ndios e dos jesu�tas, sem nenhum didatismo pr�-concebido. A quest�o da intoler�ncia com o contato com culturas diferentes chega a atingir inclusive um ponto cruel, como a bem explorada quest�o da tradi��o dos �ndios em matar os pr�prios filhos.
A COR DO PARA�SO (Majid Majidi, Ir�) -
Dialogando com temas j� tratados em outros filmes iranianos, como o garoto cego (O Sil�ncio) abandonado pelo pai na sa�da da escola (O Espelho), o novo filme de Majidi possui uma estrutura dram�tica e narrativa que o aproxima mais do paradigma americano do que do cinema tipicamente iraniano, como o diretor j� demonstrou em seu anterior Filhos do Para�so. A tens�o psicol�gica e os conflitos do pai s�o quase uma novidade no novo cinema iraniano, � exce��o do veterano Mehrjui (p ex, Leila). J� o clima buc�lico e a rela��o com a av� nos remetem a Pather Panchali. Na parte final, no entanto, quando o cavalo cai no rio e o pai, devido a seu sentimento de culpa, cai na �gua para salvar o filho, vemos um excesso dram�tico que descaracteriza as melhores partes do filme, quando a sutileza predomina. A rela��o do menino com a natureza � uma das mais fortes vertentes do filme. O sugestivo plano que encerra o filme, com um plano-detalhe na m�o do menino, nos remete, pelo seu poder de s�ntese e poesia, ao final de Filhos do Para�so, mas com menor impacto.
DAN�ANDO NO ESCURO (Lars von Trier, EUA)
- Lars von Trier faz um marcante filme sobre a desumaniza��o no mundo contempor�neo. Sempre brincando com os limites da narrativa cl�ssica, oscila entre um tratamento de c�mera e de montagem austero, distante de seus personagens, e de uma forte intimidade, com o processo de identifica��o e os n�meros musicais. Bel�ssimo uso do cinemascope mesmo com c�meras digitais. No entanto, h� algumas situa��es mal resolvidas, e no quarto final do filme, uma necessidade exagerada de comover o espectador, utilizando paralelismos e recursos t�picos do mais banal cinema americano.
DEPOIS DA CHUVA (Takashi Koizumi, Jap�o)
- Com roteiro de Akira Kurosawa, Depois da Chuva � um sens�vel drama sobre um correto samurai desempregado que acaba sendo chamado pelo senhor da regi�o para uma demonstra��o de sua habilidade, e talvez um importante emprego. A lisura e a corre��o do samurai, que n�o abdica de seus princ�pios, acaba o prejudicando a princ�pio, mas ao fim da jornada, ele acaba recompensado. Mas o filme poucas vezes cai no didatismo exagerado e no melodrama f�til.
17 ANOS (Zhang Yuan, Jap�o) -
Sens�vel fillme sobre garota presa por acidentalmente matar a irm� que � liberada para passar o ano novo com a fam�lia 17 anos depois. Inesperadamente, surge uma rela��o de cumplicidade entre a presa e sua superior. A princ�pio, a fam�lia a trata mal, mas no final surge o perd�o. O filme tem uma estrtura de melodrama, mas convence especialmente nos tempos mortos e em sua simplicidade. Lamenta-se apenas que a mesma atriz tenha feito os pap�is de antes da pris�o e 17 anos depois, sem nenhum trabalho de produ��o para incorporar a diferen�a de idade.
E O MICH� VESTIA BRANCO (Bruce LaBruce, EUA) - � Filme gay cujo interesse se restringe a seu gueto espec�fico, o filme tenta incorporar duas novidades, mas fracassadas. A primeira � o fato de o pr�prio diretor (Bruce LaBruce) interpretar um rep�rter que vai para um outro lado de Hollywood entrevistar pessoas sobre o mundo da prostitui��o masculina e acaba se apaixonando por um dos garotos. A outra � a incorpora��o de duas cenas ousadas. Na primeira, h� um homem que sente prazer sendo cortado por giletes. A segunda � uma cena escatol�gica, onde um aleijado faz sexo com um cliente utilizando seu cotoco de perna como membro (?!). No entanto, no final, se torna abaixo do rid�culo, com a absurda hist�ria do desmaio na jacuzzi escorregando no sabonete, e o final com os dois juntos caminhando como Bambis � beira da praia.
FELIZ ACIDENTE (Brian Anderson, EUA) - � Se em Pr�xima Parada Wonderland, Brian Anderson consegue dar um novo f�lego ao desgastado g�nero das com�dias rom�nticas dialogando com o determinismo m�gico, em Feliz Acidente ele utiliza o mesmo conceito para compor um filme totalmente desarticulado e sem a magia de seu filme anterior. Feliz acidente n�o consegue escapar de nenhuma das armadilhas do g�nero. A hist�ria do rapaz "estranho" em contato coma cultura quase alien�gena para ele lembra Minha Noiva � Uma Extraterrestre. Atores ruins, dire��o prec�ria, decupagem sem nenhuma originalidade, final previs�vel tornam o filme um dos piores exemplares do mainstream americano.
HANELE (Karel Kachyna, R. Tcheca) -
Filme tcheco que explora a intransig�ncia das tradi��es de uma fam�lia judia, que n�o permite que sua filha se case com um homem fora de seu meio, Hanele tem um correto trabalho de dire��o que sustenta o filme mesmo em situa��es mal resolvidas. Alguns planos criativos e um trabalho de interpreta��o contido tornam o filme um convencional mas em algumas vezes sens�vel trabalho sobre a liberdade e o amor.
NOSSA SENHORA DOS ASSASSINOS (Barbet
Schroeder, Fran�a/Col�mbia) - Aparentemente uma simples narrativa sobre um escritor, o marcante filme do apenas convencional Barbet Schroeder surpreende por pouco a pouco inserir o espectador em seu mundo particular. A banaliza��o da viol�ncia recebe um tratamento bastante criativo pelo diretor. Ao final, no entanto, torna-se um incr�vel questionamento sobre a aus�ncia e a presen�a de Deus num mundo que (aparentemente pelo menos) parece regido pelo absurdo.
PINK NARCISSUS (An�nimo, EUA, 1972) -
Curioso filme realizado por an�nimos que se tornou um cult gay. Agora, parece envelhecido por ser demasiado brega (ver a rela��o do garoto com uma borboleta e suas poses), mas possui um interessante tratamento da imagem. Sem di�logos, o filme mergulha de cabe�a no inconsciente de um garoto de programa, mostrando seus sonhos e suas frustra��es de forma t�o pessoal, que nos remete a uma interpreta��o freudiana. O filme possui um belo tratamento da imagem, com experimenta��o na composi��o da cor e cenas com claras influ�ncias expressionistas (e de novo Freud!) em cen�rios que merecem destque.
POUCAS E BOAS (Woody Allen, EUA) -
Trabalhando num estilo de falso document�rio, Poucas e Boas funciona como uma conversa de bar, mais preocupado com os mitos em torno do m�sico Emmet Ray do que propriamente com uma vis�o da �poca e de sua m�sica. Por isso, muitas vezes se torna caricato e inconsequente. A elogiada interpreta��o de Sean Penn esbarra no caricato, em contraposi��o ao sutil lirismo de Samantha Morton. A melhor sequ�ncia � sem d�vida a cena do assalto � loja no meio da estrada, em que a hist�ria � contada tr�s vezes, segundo diferentes vers�es.
O QUADRO-NEGRO (Samira Makhmalbaf, Ir�) -
Ap�s o promissor A Ma��, Samira Makhmalbaf decepciona no seu esperado O Quadro-Negro. Com uma c�mera na m�o que em nada contribui para o envolvimento do espectador, � um filme sem nenhuma inspira��o no desenvolvimento do roteiro, com incont�veis repeti��es, inclusive de di�logos, e com quase nenhuma cena com uma marcante sensibilidade. Explorando o drama do professor que viaja com seu quadro-negro � procura de alunos, tem um bom desfecho em que se pensa o problema das fronteiras e da liberdade. No entanto, em nada acrescenta estetica e tematicamente ao que j� se viu do cinema iraniano.
O REI EST� VIVO (Kristian Levring, Su�cia) - � Apesar do come�o em que a briga no interior do �nibus destila um veneno por tr�s da superf�cie burguesa t�pica do estilo dogma, O Rei Est� Vivo n�o consegue desenvolver suas inten��es porque possui um roteiro p�fio e interpreta��es p�ssimas. O espectador n�o consegue se convencer do desespero do grupo, nem da encena��o da pe�a no meio do deserto. O afloramento da sexualidade no grupo � tratado de forma completamente descaracterizada. Os personagens n�o possuem qualquer conflito e o final descaracteriza totalmente o filme.
O RIO SUZHOU (Lou Ye, China) -
Tentativa chinesa de incorporar os cacoetes do cinema independente norte-americano, o filme de estr�ia de Lou Ye cai no tratamento caricato de seus personagens. Utilizando a batida hist�ria de um cineasta em busca de uma hist�ria e de sua rela��o com os personagens, Ye incorpora uma c�mera ponto-de-vista que irrita porque o que acaba num grande clich� � tratado pelo diretor como se fosse a descoberta do s�culo. Sua tentativa de fazer um certo painel de um outro lado da China (note o come�o descrevendo a cidade � beira do rio) tamb�m n�o se realiza.
Marcelo Ikeda 22/10/2000. |