LESTE / OESTE

Se A vi�va de Saint Pierre consegue fugir da armadilha do insosso filme de �poca padr�o, � exatamente nesse r�tulo que deve ser visto Leste/Oeste, de Regis Wargnier. Da forma semelhante como j� havia feito em Indochina, as paisagens deslumbrantes, o excelente trabalho de dire��o de arte, a expressiva fotografia utilizando de forma h�bil o widesreen, a trilha sonora na hora certa, tornam o filme um primor se considerarmos os aspectos t�cnicos. J� no in�cio, a decora��o do sal�o onde o russo brinda � sua esposa, e a bela grua que circula em continuidade pelo sal�o j� mostram o fascinante visual do filme. Mas no entanto de que servem esses recursos t�cnicos se eles pontuam uma hist�ria conduzida de forma burocr�tica, artificial e cheia de clich�s?

Outro ponto profundamente irritante � a vis�o estreita do processo hist�rico. Os russos s�o os grandes vil�es do filme, que parece ter sido feito com o �nico objetivo de falar mal do comunismo. Nisso, o filme � descaradamente manipulador no pior sentido da express�o. E ser� que o diretor ainda n�o compreendeu que a guerra fria acabou, e que essas discuss�es n�o t�m mais sentido? Para que remoer o autoritarismo comunista, agora que este j� est� mais que morto? O filme acaba quando finalmente a francesa e seu filho conseguem espacar das garras do regime russo. Surge um texto que fala que anos mais tarde o marido russo consegue sair da R�ssia apenas por causa da abertura de Gorbathcev. E por a� vai. O que s� reflete um senso de alucina��o paran�ica completamente injustificado. O torturador, que aparece tanto no come�o como quase ao final do filme, � uma completa caricatura.

Quero aqui registrar apenas de passagem tr�s pontos. O primeiro � a vis�o talvez politicamente incorreta do casamento. Wargnier n�o tem culpas em mostrar tanto o marido como a mulher traindo um ao outro, seja com a vizinha, seja com o nadador. Talvez porque ele tenha que amarrar esses personagens ao longo da hist�ria, e gerar um conflito entre o casal, para mostrar suas dificuldades em ficar juntos. O segundo � uma certa ironia na postura da artista francesa interpretada por Catherine Deneuve. O filme �s vezes sutilmente sugere que a atriz ajuda o casal mais por um capricho pessoal do que necessariamente um desejo pelo que � justo. O terceiro � o papel do nadador. � interessante pensar que talvez tenham existido tantos atletas expecionais na Uni�o sovi�tica simplesmente porque esses indiv�duos n�o tinham nenhuma outra op��o. O esporte talvez pudesse ser sua �nica esperan�a de liberta��o.

Marcelo Ikeda

02/10/2000.

 

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