K E S

Ontem na salinha apertada do Museu da Rep�blica, vi um filme do sr. Kenneth Loach chamado Kes. Apesar de ser o filme mais conhecido do diretor, um amigo j� havia me dito que era um filme bobo. N�o esperava muito. Por alguma informa��o errada, achava que era um filme sobre um grupo de trabalhadores em greve. Esperava outro daqueles filmes pol�ticos e corretos. Mas n�o. Kes � um daqueles filmes que s�o t�o menores que se tornam quase inesquec�veis. � um filme para ser visto num domingo cinzento, na in�rcia do dia seguinte � ressaca de ontem.

Pensando bem, meu amigo estava certo. Kes � um filme bobo. Conta a hist�ria de um menino cujo grande sonho era ser um menino como qualquer outro. Ele � muito solit�rio e talvez apenas precise de uma boa companhia. Ele tem que trabalhar para ajudar a m�e e o irm�o nas despesas da casa. Depois, ainda vai para a escola. Mas � como se n�o fosse para lugar algum.

Kes � um filme desiludido, e por isso o filme � cheio de tons de cinza. J� no primeiro plano do filme, Billy e seu irm�o quase n�o podem ser vistos deitados na cama. A princ�pio, pensamos que o di�logo �spero � uma brincadeira de irm�os. Mas o filme est� apenas come�ando.

Em seguida acompanhamos a vida do solit�rio Billy Casper e suas est�ticas andan�as. Vemos seu empreguinho como entregador de jornais. Numa curiosa refer�ncia a Ladr�es de Bicicletas, o irm�o de Billy levara sua bicicleta, o que quase lhe causou a perda do emprego. Vemos como seu irm�o trata sua m�e de forma agressiva. Vemos tamb�m como os professores agridem f�sica e moralmente os alunos.

At� que o solit�rio menino finalmente encontra um sentido para sua vida: um p�ssaro. Acho curioso que o filme se chame Kes, porque dessa forma fica claro que, ao intitular o filme com o mesmo nome dado ao p�ssaro, o sr. Loach est� querendo nos falar sobre um sentimento chamado liberdade.

A rela��o do menino com o p�ssaro � bastante expressiva porque os dois est�o muito pr�ximos e muito distantes. Para obter a companhia do livre p�ssaro, Billy extrai dele o que lhe � mais intr�nseco: sua liberdade. Billy aprisiona Kes e o faz obedecer as suas ordens da mesma forma que a cruel sociedade a sua volta faz consigo. Assim como o p�ssaro, Billy � um animal castrado.

Kes � um filme simples, e em muitos momentos tenta manipular as emo��es do espectador. Vemos o jogo de futebol, vemos como os alunos aplaudem quando Billy lhes fala sobre o p�ssaro, vemos a aproxima��o do atencioso professor. � verdade. Kes � um filme bobo e bastante irregular. Kes � pequeno e tolo e cheio de lugares comuns como as menores vidas o s�o.

Boa parte do filme se passa na escola, lugar onde Billy deveria ter sua forma��o para a vida. H� uma incr�vel cena das palmat�rias. Um garoto bem pequeno � enganado pelos colegas e � pego pelo diretor com uma cartela de cigarros nos bolsos. O menino leva as duas palmat�rias, uma em cada m�o. Plaft. Plaft. Ru�do seco. Ele chora. As m�os doem, mas � o de menos.

Mas nada disso na verdade importa se Billy finalmente conseguiu achar algo que realmente lhe seja valioso, mais valioso do que sua pr�pria vida. Finalmente ele tem um sonho, algo em que pode acreditar. Billy n�o se importa com o seu futuro, que cada vez mais lhe parece inevit�vel: trabalhar no po�o como o irm�o. Nada disso lhe importa. Ele finalmente achou um p�ssaro, que ele quer domesticar.

� quando ocorre uma das cenas mais cru�is j� vistas no cinema. O irm�o de Billy lhe pedira que ele apostasse $2 em um cavalo, e calculando as poucas chances do cavalo, o menino resolve gastar o dinheiro. Compra um peixe com fritas, e com o troco pega um restolho de carne. Mas o azar�o acaba ganhando. Jud, furioso, procura Billy, mas ele se esconde na escola. No dia seguinte, quando Billy espera que a raiva do irm�o tenha ao menos diminu�do, ele sai de seu casulo e retorna para casa. E ent�o descobre: Jud matara Kes. Simplesmente assim. Billy acha o p�ssaro na lata do lixo, escorrendo algum sangue. A m�e a princ�pio censura Jud, mas com o prologamento da discuss�o, ela resolve apaziguar os �nimos. "Afinal, j� passou, o que adianta mais discutir? O animal j� est� morto! E ora bolas, era apenas um bicho, nada mais"... Um bicho.

Kes � um filme cruel e violento. O que mais me assusta no filme � a quest�o da culpa. Quando Billy briga com outro menino maior, o professor lhe pergunta porque os meninos implicam tanto com ele. Billy diz que os meninos est�o certos, porque na verdade, ele, Billy, sempre se atrapalha e acaba n�o fazendo nada certo. Ele cita o caso das palmat�ria, em que ele realmente dormira em p�.

Outras cenas como essa se repetem no filme. No jogo de futebol, Billy � obrigado a ficar horas na �gua fria, ainda mais fria que o normal porque o professor desligara completamente o sistema de aquecimento. Billy grita que n�o � justo. "E � justo deixar todos os gols passar?", retruca o professor.

No pr�prio caso da morte de Kes, a quest�o da culpa � quase insuport�vel. Jud grita "se voc� n�o tivesse gastado o dinheiro da aposta, nada disso teria acontecido!!". Claro, por que de quem � a culpa sen�o a do pr�prio Billy? De quem � a culpa por ele ser t�o atrapalhado, distra�do e irrepons�vel?

Kes � o filme que eu sempre quis ver sobre as crian�as, mas nunca vi. � um filme que recusa a vis�o estereotipada da inf�ncia como s�mbolo �ureo da vida, das tenras brincadeiras, do conforto da fam�lia e do primeiro amor. Em Kes n�o h� nenhuma rela��o amorosa. Mas se de um lado Kes me fez bem, ele tamb�m me causou uma profunda dor. Quem era na verdade aquela crian�a? Quem era aquele menino que andava sozinho pelas campinas, que apanhava na escola, que era ridicularizado pelos colegas e professores?

No final do filme, Billy faz uma pequena cova para o seu p�ssaro Kes ser enterrado. Corte seco. O filme acaba. Sil�ncio. Qual � a sa�da para aquele menino agora, que todos os seus sonhos foram simplesmente enterrados? O que ele poderia esperar da vida agora se a �nica coisa que realmente tinha alguma import�ncia para ele se fora?

Fiquei com medo. Se o sonho mais precioso daquele solit�rio menino era domesticar o p�ssaro, o meu sempre foi o de fazer um filme como Kes. E se me tirarem isso, como poderei viver? Tenho medo.

Marcelo Ikeda

10/10/2000.

 

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