A HUMANIDADE |
O filme de Bruno Dumont � um filme exemplar tendo-se em vista o autal cinema de autor contempor�neo. Assim como em v�rios filmes desses �ltimos anos (inclusive brasileiros), ele � centrado em uma rela��o essencialmente psicol�gica, e faz quest�o de deixar cada vez mais em aberto uma solu��o. O contraponto entre o rapaz solit�rio e introspectivo com o casal de jovens e sua rela��o carnal a princ�pio leva o espectador a esperar um desfecho tr�gico, ou mesmo que justificasse a suposta a��o cruel do rapaz na abertura do filme. Para tanto, o diretor utiliza paralelismos (a vagina da menina estuprada e de Domino), al�m do fato de Joseph claramente ridicularizar todo o tempo o policial. Como o bom cinema contempor�neo, o filme quebra essas espectativas, susbstituindo-as pela d�vida, optando por um final em aberto. O filme narra as investiga��es da pol�cia sobre um brutal estupro de uma menina no interior da Fran�a. Mas parece-nos claro desde o come�o que o assassino foi um policial solit�rio, introspectivo e bem estranho, que se assemelha a um retardado. Esse pr�prio policial inicia as investiga��es averiguando o �nibus que levara a crian�a at� o local, perguntando sobre um trem que passava nas redondezas, etc. Em paralelo, nas horas vagas, ele acompanha um casal, Domino e Joseph, em seus passeios. Domino tem uma libido que aflora facilmente, e no final ela se oferece a Joseph, que recusa. O final � amb�guo: n�o sabemos se foi Joseph ou o policial o autor do crime. Dumont utiliza com muita propriedade recursos como uma �nfase nos tempos mortos, a c�mera est�tica e a tela larga para intensificar a ang�stia e aprofundar a in�rcia que rege as rela��es naquela cidadezinha. Como o pr�prio t�tulo faz quest�o de exibir, os planos de longa dura��o e a nega��o de um cl�max que feche o enredo coroam a inten��o do diretor de promover uma esp�cie de painel das rela��es humanas nesse final de s�culo. Se a rotina da cidadezinha � quebrada por um ato brutal, o ritmo f�til da investiga��o nos remete � falta de sentido da vida como uma busca por respostas. Ao final da investiga��o, as pistas parecem in�teis para reverter o vazio da situa��o. Al�m disso, o choque psicol�gico entre o policial e Joseph apresenta cenas marcantes. Um postulado disso � que o filme trata a quest�o da liberdade. O primeiro plano nos mostra o policial (supostamente) correndo num plano geral, entre �rvores e o verde da regi�o. No �ltimo, ele est� acorrentado, num plano pr�ximo. Marcelo Ikeda 05/10/2000. |