GENDERNOUTS

O document�rio de Monika Trout deve agradar apenas aqueles que possuem um interesse especial no document�rio, ou ainda �quelas pessoas que, por um motivo ou outro, se interessam pelo tema abordado. O tema � sem d�vida original e de certa forma interessante. O filme mostra pessoas que desejam mudar de sexo, ou melhor, o filme diz que o sexo � independente do seu �rg�o genital. Da� pessoas dizerem que n�o existem apenas dois sexos, masculino e feminino, mas uma infinidade de categorias intermedi�rias. Com depoimentos enxutos, o filme acompanha de forma digna e sem estardalha�os depoimentos de pessoas que fizeram essa escolha, acompanhando a vida de S�o Francisco, considerada a Meca Gay. O filme entrevista pessoas que falam sobre suas dificuldades, commenta sobre opera��es, rem�dios hormonais, conversa com m�dicos que s� recentamente come�aram a despertar para o assunto, fala sobre eventos organizados para unir esses grupos, e do preconceito.

De forma politicamente correta, o filme incentiva a escolha, dificilmente problematizando o fato. "O importante � ser voc� mesmo, deixar sua sexualidade aflorar, n�o importa como seja" - esse � o grande lema do filme.

Na est�tica, o document�rio � completamente conservador, e isso se choca muito com o tema abordado. Isso incomoda, porque no fundo confere uma legitimidade extrema ao mundo careta, �s conven��es padr�o da sociedade que esse grupo quer a princ�pio abandonar. � como se eles dissessem �s "pessoas de fam�lias": "n�s somos pessoas como quaisquer outras, se voc�s nos deixarem em paz, n�s ficamos aqui no nosso canto...", ou pior, mostram um desejo absurdo de serem aceitas como membros da sociedade, e n�o como seres esquiz�ides. � admitir que sua independ�ncia e seu equil�brio depende em �ltima inst�ncia menos de uma transforma��o da vis�o de mundo dos conservadores, do que de sua aceita��o. Submetendo-se a uma estrutura tradicional definida como acima de si, o objeto do filme mostra o quanto est� enfraquecido. A op��o � uma esp�cie de tentativa de vitimiza��o.

Enfim, pode ser um filme pol�tico, mas de qualquer forma � muito conservador.

Marcelo Ikeda

05/10/2000.

 

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