AS COISAS SIMPLES DA VIDA |
Uma das maiores expectativas do Festival do Rio foi sem d�vida esse �ltimo filme de Edward Yang, que j� havia se consagrado internacionalmente com a recep��o de A Summer Bright Day. Cineasta de Taiwan conhecido por revelar de forma minuciosa em seus filmes o cotidiano das rela��es familiares, Yang, apesar da longa dura��o de quase 3 horas do filme, consegue distribui��o americana devido ao sucesso de seu filme anterior. No entanto, o filme de Yang decepciona completamente. Na superf�cie, Yi Yi parece um t�pico filme oriental. As crises e as redescobertas que regem o cotidiano de uma fam�lia de classe m�dia e seus conhecidos num ritmo contemplativo nos remetem imediatamente ao cinema de Ozu, especialmente num trabalho de mise-en-scene que evita os malabarismos desnecess�rios de c�mera e que busca uma vis�o de cinema que recusa o simb�lico simplista. Ainda, Yang aposta numa ampla gama de personagens, com o claro objetivo de compor um painel da Taiwan dos dias de hoje. As quatro idades est�o claramente representadas, com seus conflitos e dificuldades: o menino maltratado na escola, a adolescente com seu namorado, o homem de meia-idade bem sucedido mas que enfrenta uma crise de identidade, a idosa abandonada que est� cansada de viver e espera sua hora. Mas Yang n�o � Ozu. Em contraposi��o ao cinema de uma austeridade que se expressa com o m�nimo para dizer o m�ximo, em As Coisas Simples da Vida tudo precisa ser explicitado ao m�ximo para o espectador. Se Ozu resgata a simplicidade dos cotidianos e das crises familiares para resgatar um sentimento de mundo essencialmente oriental, � especialmente na est�tica burocr�tica de Yang que seu filme se revela claramente americanizado. A falsa autenticidade no tratamento dos personagens em v�rias vezes esbarra no caricato e no sentimentalismo f�cil, com recursos t�picos da narrativa cl�ssica. J� no primeiro plano do filme, o retrato da fam�lia e o pobre menino que � perseguido por outras garotas, acompanhado de uma melodia f�cil, mostram o apelo ao ing�nuo e a necessidade de conquistar o espectador com cenas que tocam nos lugares-comuns. Com isso, Yang ir� utilizar todos os tipos de paralelismo e os campos-contracampos para explicitar as rela��es entre os personagens. O que poderia ser impl�cito se torna expl�cito por um trabalho de mise-en-scene que nunca foge do convencional. Por exemplo, na despedida do executivo e do seu grande amor do passado, ele volta a bater-lhe na porta, e surge um di�logo como "nunca amei ningu�m mais depois de voc�". Quando o adolescente assassina uma pessoa, h� uma imagem de um videogame de luta, numa associa��o f�cil sobre a banaliza��o da viol�ncia. Fechando todos os tipos de elos para que o espectador sinta a cena no momento certo e com a intensidade previamente estabalecida pelo diretor, Yang faz um filme que no fundo � americano. No momento mais dram�tico do filme, quando a adolescente conversa com sua av�, um lento travelling nos mostra ao fundo, na penteadeira, uma foto de Cary Grant e outra de Audrey Hepburn. No in�cio do filme, o garoto desiste de comer com a fam�lia para lanchar no MacDonald�s. Em outro momento de pseudo-referencialidade, um personagem diz que o cinema tem o dobro da intensidade da vida, mostrando a necessidade do diretor afirmar explicitamente para o espectador que seu filme se refere a fatos cotidianos. A �ltima seq��ncia do filme resume � perfei��o a pretensa sinceridade do diretor. O menino sempre se recusara a falar com a av� em coma. Quando ela finalmente morre, o menino resolve ler uma carta. L� est� todo o discurso para emocionar o espectador: o menino, a nega��o das palavras, o encontro num outro lugar distante do terreno. E nesse instante h� um plano que mostra todo o desrespeito de Yang por algum sentimento verdadeiro. Quando o menino fala, h� um plano fechado de sua m�e com l�grimas nos olhos. � nesse instante que Yang quer que n�s os espectadores choremos. Isso porque existe todo um paralelismo com o fato de a m�e ter desistido de conversar com sua m�e porque na verdade n�o havia novidades a serem contadas. � claro que h� algumas cenas e momentos que merecem destaque. O filme possui pelo menos dois claros momentos em que se joga com o tempo de forma subjetiva: o encontro do executivo com seu amor do passado e o encontro da adolescente com sua av�. No entanto, j� comentamos como o diretor utiliza recursos desgastados em momentos fundamentais nessas seq��ncias. Outro destaque � o personagem do executivo japon�s, sobretudo a sequ�ncia em que ele "joga cartas" (sic) com o outro executivo, sem d�vida a mais expressiva do filme. Mas algumas cenas esparsas s�o muito pouco em rela��o � grande expectativa que cercava o filme. Edward Yang se revela um oriental com um olhar clichezado, nada sutil e que subestima ao m�ximo o espectador. Esperemos que essa seja uma exce��o na filmografia de Yang, ou que o autor dessas linhas esteja em um dia emburrado, j� que o filme recebeu recep��es bem positivas pela grande maioria da cr�tica internacional (leia-se ocidental!). Marcelo Ikeda 16/10/2000. |