A ENFERMEIRA BETTY

A singeleza desse filme aparentemente despretensioso de Neil LaBute � seu expl�cito paradoxo. De um lado, � uma cr�tica ferina a um tipo de cinema alienante; por outro, n�o se nega como parte pertencente a esse esquema. Em partes.

Quando uma inofensiva gar�onete testemunha o brutal assassinato do marido por traficantes de drogas, em estado de choque, resolve ir para o distante Arizona em busca de seu ex-noivo, David. Mas na verdade, ele � um personagem de televis�o de uma cafona novela. Betty passa a confundir realidade e ilus�o. Ela pensa que seu personagem � real.

Betty acaba de fato conhecendo o ator do filme, e nesse encontro, ele pensa que Betty est� de fato fingindo, ou melhor, representando um papel, porque ela deseja muito ser atriz e quer provar a ele o quanto � boa. O fato de lembrar de toda a vida do personagem David impressiona o ator e a produtora e roteirista do programa. A cena do encontro � talvez a mais marcante do filme, porque expressa bem o conflito entre real e ilus�o que � o cerne do filme. Atrav�s dessa crise de identidade, LaBute dialoga diretamente com a screwball comedy americana, em filmes como Meia-Noite, de Mitchell Leisen, mas adaptada � est�tica menos politicamente correta do cinema americano p�s-anos 80 (LaBute surgiu como um cineasta pseudo-independente).

De fato, essa confus�o espelha uma aliena��o, e da� surge o vi�s cr�tico do filme de LaBute. Quando a novela � exibida, seus espectadores se alienam completamente do mundo real, imersos na fic��o, como se nada mais importasse. A cena inicial da gar�onete que serve seus clientes sem tirar os olhos da TV (literalmente) remete � aliena��o de O Show de Truman, por exemplo. Os clich�s e o lugar-comum parecem rid�culos ao ator, mas s�o o cotidiano para a pobre e alienada gar�onete.

Mas se de um lado a televis�o aliena com seu discurso escapista de clich�s, o que dizer do cinema mainstream americano? � diferente? Claro que n�o. E LaBute tem a consci�ncia de que faz parte desse sistema. Da� surge o paradoxo. Em alguns momentos, acertadamente ele critica sua pr�pria posi��o. O melhor momento disso � quando Morgan Freeman lamenta que seu filho morreu, e diz para a enfermeira um discurso t�o abobalhado quanto o da novela: "acredite em si mesma, voc� n�o precisa de ningu�m para guiar seu caminho..." etc etc.

Por outro lado, no filme h� um comovente conflito entre o mundo real - violento, c�nico, perturbador - e o mundo da ilus�o - tenro, po�tico e inocente. Nesse ponto, o filme claramente nos remete a A Rosa P�rpura do Cairo. Como seu mundo real lhe proporcionou subitamente um epis�dio t�o violento, Betty se refugiou, como uma tentativa de fuga, na fic��o, onde nada de mal poderia lhe atingir. A viol�ncia de Morgan Freeman e seu filho representa o mundo real, o mundo da fic��o est� na novela de David e companhia. De uma certa forma, a tentativa de Betty de procurar a fic��o � porque o mundo real n�o lhe satisfaz. Betty � de certa forma ing�nua, em transe num processo de purifica��o.

LaBute explora em algumas oportunidades com incr�vel sensibilidade os pontos de contato entre esses mundos. Freeman dan�a solit�rio no noturno Grand Cannyon. Uma arma cai exatamente no aqu�rio de peixes. O garoto violento adora as novelas. George acha seu personagem David rid�culo.

O ponto em que Betty descobre, toma consci�ncia do limite entre real e fic��o � particularmente marcante. � exatamente quando o mundo da diegese se desmascara, e percebemos que aquele mundo regido pela apar�ncia de uma transpar�ncia � no fundo artificial e fabricado. Quando Betty percebe enfim que a regra cl�ssica do cinema cl�ssico narrativo existe, sua aliena��o se rompe.

Em suma, dentro dos limites de uma com�dia despretensiosa, LaBute faz uma abordagem cr�tica sobre a aliena��o que a televis�o (e por analogia o cinema cl�ssico) provoca no espectador. Por outro lado, � um filme l�dico, porque Betty assim o faz porque seu mundo real n�o a satisfaz, da� sua ingenuidade. Aliena��o ou purifica��o?

Marcelo Ikeda

05/10/2000.

 

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