E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ?

Os irmãos Coen, como grandes cinéfilos que são, sempre fazem em seus filmes referências ou homenagens a gêneros ou filmes específicos do cinema americano. Se Gosto de Sangue dialoga com um certo tipo de noir e Arizona Nunca Mais com o road movie, em a Roda da Fortuna esse conjunto de referências se multiplica de tal forma que só é possível entender o filme a partir do diálogo que o filme trava com outros filmes, em especial o cinema de Frank Capra. De Adorável Vagabundo a A Mulher Faz o Homem, os irmãos Coen constroem um filme cujas referências são bem mais importantes que o próprio desenrolar do filme em si.

Mas como fica o espectador médio, isto é, o não-cinéfilo, que desconhece as fontes das referências a que o filme se refere? Sem saber do que se trata. De certa forma, é um tipo de cinema arrogante, porque pressupõe um conhecimento razoável de história do cinema prévio à exibição do filme. De outro, é um cinema pós-moderno e esquizóide, porque é através da colagem, da brincadeira e da auto-referencialidade que os irmãos Coen constroem algo que não é nem aquele filme nem é um original deles.

No caso de E Aí meu irmão, o caso é ainda mais extremo porque as referências são múltiplas, de filmes menos conhecidos do que os de Capra e sem nenhuma conexão entre essas referências. Em A Roda da Fortuna, as referências eram geralmente ao mesmo diretor, formando uma base de referências para o espectador. Já E Aí Meu Irmão faz citações a filmes de gêneros e a tendências tão díspares quanto Contrastes Humanos, Meu Ódio Será sua Herança e O Nascimento de Uma Nação. Outras referências não foram a filmes específicos mas a gêneros, circulando entre o western, a screwball comedy, o musical, o drama, e outros. Outras várias e várias referências desafiam a memória mesmo do cinéfilo mais atento. Remodelando, reconstruindo o clichê, os Irmãos Coen fazem um filme sem nenhum compromisso a não ser com sua própria experiência de cinema.

Isso é ruim, porque muitas referências são feitas pelos Irmãos Coen para os Irmãos Coen, e o espectador muitas vezes se vê de fora desse jogo de aparências e farsas premeditadas. No fundo, é um tipo de cinema anacrônico, egoísta e egocêntrico. Os Irmãos Coen estão pouco se importando se o espectador se envcolveu nas referências ou se simplesmente transitou pelo filme.

O filme já começa se intitulando uma adaptação de A Odisséia. Perguntados, eles afirmam que nem leram o livro (veja o jogo com a realidade assim como o letreiro no início de Fargo...). Isto é, eles não se importam de forma alguma com alguma interpretação desse produto em relação à obra original. A simples referência é por si só justificada, seja qual for a relação. Por outro lado, pode ser uma forma de se justificar: não é preciso ter lido a Odisséia para ver que o filme faz uma referência. Será? O problema desse conjunto egocênrico de citações e referências é que muitas vezes elas caem no vazio, sendo apenas um jogo formal. E aí meu irmão não passa ennhuma sensibilidade ou nostalgia ou qualquer revisitação desses gêneros. É apenas um jogo, que uma super restrita parcela de privilegiados epectadores podem identificar algumas de suas peças.

Marcelo Ikeda

05/10/2000.

 

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