DJOMEH |
Hassan Yektapanah estr�ia na dire��o com o formid�vel Djomeh (ganhador do Camera d�or de melhor filme de diretor estreante em Cannes 2000). Assistente de dire��o de v�rios diretores iranianos, � com Abbas Kiarostami que ele encontra seu grande mestre. Numa entrevista, Yektapanah diz "minha longa associa��o com Kiarostasmi foi uma ben��o para mim. Ele n�o apenas me ensinou sobre o cinema, mas como olhar o mundo..." De fato, Kiarostami foi um grande intermedi�rio na realiza��o do filme, ajudando a Yektapanah a arrumar um co-produtor franc�s e visitando o set de filmagens. Em diversas cenas de fato vemos a influ�ncia de Kiarostami em Djomeh. O di�logo no carro em meio a um caminho � usado n�o s� em Close up mas especialmente em Vida e Nada Mais. O afeg�o conversa com seu patr�o no caminho para a vila onde vender�o leite. S�o os �nicos momentos do filme em que existe alguma possibilidade de comunica��o, alguma esperan�a, alguma humanidade. S�o nesses momentos extremamente cr�ticos e dram�ticos que Yektapanah mostra sua maturidade. A c�mera por mais de meia hora fica apenas no campo e contracampo, o recurso mais b�sico da linguagem cinematogr�fica. Plano fechado do afeg�o falando, sentado no banco do carona; plano fechado do chefe no volante respondendo. O que poderia se tornar recurso de c�mera mais b�sico que o show do milh�o se torna um exemplo de respeito em rela��o aos personagens. As cenas possuem uma carga dram�tica inacredit�vel sem precisar usar nenhum malabarismo de c�mera. Se a principal refer�ncia do cinema iraniano � o neo-realismo, j� a austeridade do tratamento de c�mera, com poucos movimentos e um rigor que aprofunda a quest�o psicol�gica que claramente se afirma no filme, na cena dos di�logos no caminh�o em Djomeh, lembram o rigor do tribunal de A Paix�o de Joana D�Arc. Mas o que em Bresson prenunciava um afastamento do tribunal materiasta em rela��o ao espiritual na r�, em Djomeh o rigor se torna, de forma inacredit�vel, em um elemento de intimidade. E, claro, como s� os bons autores conseguem perceber, isso s� � poss�vel atrav�s de um distanciamento. A confiss�o pessoal, o desabafo do pobre afeg�o, � tratada sem nenhum tratamento melodram�tico desnecess�rio. E sempre no final dessa sequ�ncia de planos fechados h� um plano geral que mostra o caminh�o chegando na vila, como em Vida e Nada Mais. Ora, porque acima de tudo o principal tema de Djomeh � a liberdade. No tema, o filme toca em um ponto pouco explorado por outros filmes iranianos. Djomeh � um imigrante afeg�o que vai para o Ir� por problemas em sua terra natal, e trabalha como leiteiro numa fazenda. Ele quer se casar com uma iraniana, mas, como estrangeiro, recebe o preconceito do local. Djomeh sai de sua terra e vai para o Ir� por causa do amor a da falta de liberdade. Na mercearia, h� um di�logo estupendo que resume o filme. Um homem pergunta porque o leiteiro veio para o Ir�. E diz que as pessoas nunca est�o satisfeitas em seu lugar, e se iludem buscando outra alternativa. "Os americanos v�o para a Europa, os japoneses para a Am�rica, ...". � um di�logo cruel, porque mais tarde no filme veremos a falta de perspectivas que a confiss�o de Djomeh insere. Muito se poderia falar sobre Djomeh, mas, impaciente, quero destacar o extraordin�rio final do filme. � daquelas cenas que dizem tudo, que s�o o resumo do filme, com nenhuma palavra, mas com uma pequena cena extremamente sutil. Pois bem. Como estava dizendo, o principal tema de Djomeh � a liberdade. O solit�rio afeg�o procura n�o apenas uma esposa, mas como ele mesmo diz explicitamente, uma pessoa com quem possa ter um di�logo. "E eu?", pergunta o chefe, no volante do carro. "Ora, voc� s� est� aqui na parte da manh�!" E � tarde? E � noite? � essa sede insaci�vel pela humanidade que causa a destrui��o moral de Djomeh num mundo animalizado. A liberdade de Djomeh passa a ser reprimida num mundo em que os sentimentos s�o secund�rios em rela��o � necessidade do trabalho e do cumprimento do dever. Nos di�logos do carro, fala-se algumas vezes em pris�o. O chefe muito habilmente comenta que o fato de ter que se casar antes dos vinte anos no Afeganist�o � de certa forma um dever, uma obriga��o. Isso porque Djomeh comenta que o chefe fala sobre o casamento como se falasse no trabalho, como um dever. Dessas cenas � que fica claro que o casamento para Djomeh representa n�o apenas a possibilidade de um di�logo, mas a vit�ria do espiritual sobre o material. De forma econ�mica e extremamente h�bil, Yektapanah n�o mostra ao espectador o encontro do chefe com o pai da menina, mas apenas Djomeh o esperando. Nesse ponto, h� um dos raros fades do filme, que � quase todo em corte seco. A tela, por alguns segundos fica completamente negra. Em seguida, h� um fade-out. � noite, ao longe, vemos a lanterna de um carro. A luz no fundo da paisagem completamente negra representa uma esperan�a. Deve ser o chefe trazendo finalmente alguma not�cia, pensamos n�s junto com Djomeh. Nada! Era apenas um outro carro... Mas vamos ao final. No dia seguinte, o chefe traz para a fazenda um outro trabalhador. Vemos um cochicho do chefe com o empregado mais antigo sobre n�o querer demitir Djomeh. O novo empregado trata Djomeh asperamente. Dessa vez, n�o � mais Djomeh, mas o novo empregado quem vai para a cidade no carro com o chefe. Do lado de fora da fazenda, Djomeh pergunta ao patr�o como foi o encontro com o dono da mercearia. "Falamos nisso depois", responde o patr�o. Vemos a caixa de doces. Provavelmente, Djomeh, o estrangeiro, n�o foi aceito. O carro sai. Djomeh fica est�tico, olhando para o extracampo � esquerda, acompanhando a poeira do carro. � direita, uma vaca sai pelo port�o principal. O antigo empregado chega e repreende Djomeh, levando a vaca novamente para dentro da fazenda. A c�mera fica no pequeno port�o da fazenda aberto. Lentamente, Djomeh entra em campo, se adentra pelo port�o e o fecha na cara do espectador. Assim, todo o trabalho do filme sobre a perda de liberdade ganha um sentido inacredit�vel. Djomeh � como uma das vacas do patr�o. A ele, s� lhe resta o mundo claustrof�bico do trabalho na fazenda. Marcelo Ikeda 17/10/2000. |